Recém-nascida preta

 Foto: Helena Lopes

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Cresci sendo uma das poucas pretas da turma. Nasci privilegiada, com acesso à educação particular, comida sempre à mesa e uma família estruturada.

Mas também cresci sentindo muita dor com algo que é parte da nossa rotina: pentear o cabelo. Os puxões eram muitos e o resultado era sempre decepcionante. Até alcançar uma idade aceitável para ir a um salão — no caso, oito anos — foi difícil ir pra escola. Difícil ouvir que eu andava descabelada e que isso era desleixo, quando queria que as pessoas vissem também o meu lado e entendessem como era difícil ter o cabelo que elas tinham. Aí veio o alisamento e um conforto temporário que me fez que crer que tudo estava resolvido, agora eu era um deles. Poderia passar despercebida desde que, de três em três meses, voltasse ao salão para me fazer de novo uma mulher lisa.

Foi assim que cheguei em 2016. Mas já era cansativo ir ao salão. Cansativo passar meus sábados lá. Até que esbarrei com alguém reclamando da mesma coisa em um grupo no Facebook. E aí a internet provou sua importância para nossas revoluções: descobri o poder das redes on-line. Encontrei uma rede de apoio porque encontrei gente que parecia comigo. Gente que me entendia. Que tinha o mesmo cabelo das minhas fotos na infância. Gente como eu.

Daí pra frente, renasci mulher preta. Lembro bem do dia em que entrei no Pinterest e vi em nenhum board de inspiração de estilo, cabelo ou beleza havia alguma mulher negra. Meu primeiro passo, então, foi conhecer meu cabelo — conhecer mesmo, porque não lembrava como era sua textura. Comecei a reparar a ausência de pessoas semelhantes. Comecei a ler mais autoras do que autores, a usar a linguagem neutra de gênero e a me importar com coisas que eu fingia não serem comigo: (auto)conhecimento é um caminho sem volta.

Desde então são dois anos de novos hábitos, descobertas sobre mim e sobre o problema da diversidade no Brasil. Na última semana, veio mais uma confirmação de não estar sozinha: o Google BrandLab divulgou um estudo mostrando que feminismo e racismo estão entre os termos que mais cresceram em números de pesquisas no Brasil.

Durante a mudança, me vi diante de diversas mulheres, aprendendo sobre como podemos lutar por nós. Entendi que a minha história é de muitas. E, ao mesmo tempo, há muitas experiências que passam longe da minha vivência. Do aprendizado, veio a urgência em compartilhar. Conhecimento provoca, transforma, empodera — e é o que quero fazer neste espaço.

Hoje, mulher, preta, feminista sou também colunista aqui. Espero que nossas discussões e reflexões cheguem a quem também busca por si mesma.

Autor
Sou mulher preta, comunicóloga, redatora e poeta. Especializada em Gestão de Marcas, com foco em Branded Content, sou cofundadora da navaranda - mulheres em rede, uma empresa criada para produzir experiências, encontros e conteúdos sobre diversos contextos do universo feminino: Ladies, Wine and Design BH, Museu das Minas e Saúde Sem Tabus são dos nossos projetos. [@jessicacagomes]

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