O olhar precioso da Relicário

 Maíra Nassif, fundadora da Relicário. Foto: Gabrieu Algusto

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Quando se fala de uma casa editorial de uma pessoa só, é fácil enganar-se e pensar que se trata de algo menor. Mas basta passar os olhos no catálogo da Relicário Edições para descartar qualquer visão de pequenez. Criada pela mestre em Filosofia Maíra Nassif em 2013, a editora aproxima-se de seus cinco anos com 48 livros publicados.

Ali você encontra a poesia de grandes nomes contemporâneos e belo-horizontinos, como Ana Martins Marques, Ana Elisa Ribeiro e Lucas Guimaraens. Encontra uma obra que teve seus direitos comprados por uma editora de Kosovo e traduzida para o albanês: A Retornada, de Laura Erber. Além disso, há as obras traduzidas que fazem jus ao termo “tradução-acumulação”, que remete à ideia de que uma língua ganha repertório ao ter grandes obras inseridas ao seu inventário, e trazem ao português novas ideias, formas e formulações, como o recém-lançado box de Alejandra Pizarnik e as obras de Damián Tabarovsky, Roberto Arlt e Diamela Eltit (autora convidada da Flip 2017).

Só que mais interessante do que as publicações editadas por Maíra, é o seu olhar para o ofício do editor:

“ao trazer à existência material e dar forma àquilo que estava em estado bruto, para em seguida lançá-lo à frente e torná-lo público e disponível, me sinto mesmo realizando alguma espécie de rasgo no real, de desestabilização em alguma ordem simbólica”.

A entrevista abaixo é um vislumbre da forma com que essa Editora trabalha e como ela enxerga seu lugar na cena literária belo-horizontina, mineira e brasileira.

Flávia Denise: Como foi o processo (emocional e prático) de abrir a Relicário?

Maíra Nassif: A Relicário foi um desvio feliz em relação ao meu planejamento profissional inicial. Sou graduada e mestre em Filosofia pela UFMG, com ênfase em Estética e Filosofia da Arte. Após a conclusão do mestrado, recebi a indicação de um amigo para trabalhar em uma editora que estava procurando pessoas com perfil acadêmico para cuidar da produção editorial. Como eu queria mesmo fazer uma pausa na atividade estritamente acadêmica, acabei topando essa empreitada. Nessa ocupação, totalmente nova e inesperada para mim, fui descobrindo que era exatamente isso o que eu queria: editar livros, trabalhar com eles não apenas usando-os, mas também produzindo-os. Depois de dois anos como produtora editorial nessa editora, tive a ideia de fundar a Relicário, para publicar livros relacionados à minha formação e desejos de leitura. Ou seja, a história da Relicário se confunde com a minha, pois é o resultado do meu conhecimento prático adquirido no mercado editorial, minha bagagem acadêmica e meu gosto pelos livros e pela leitura. Como não existe editora sem livro e não basta ter um nome, a primeira providência foi buscar um título para publicar! A primeira obra foi Personagens conceituais: filosofia e arte em Deleuze, do Fernando Tôrres Pacheco, um amigo acadêmico super competente. Ele havia defendido sua dissertação e esta recebeu recomendação para publicação. Fizemos, então, um acordo de dividirmos os custos de produção do livro. Isso seria bom para mim, afinal seria o livro de inauguração da Relicário, e um bom exemplo da linha editorial que eu desejava seguir, e bom para ele, afinal isso serviria para o bom prosseguimento de sua vida acadêmica. A partir daí, futuras e novas portas foram se abrindo para a Relicário.

Quais são as maiores dificuldade em abrir e manter uma editora?

Nesses quase 5 anos de Relicário notei que as dificuldades foram mudando de cara, algumas se resolvendo e outras aparecendo à medida em que as atividades foram se expandindo. Desde o início e até bem pouco tempo, as maiores dificuldades eram em relação à divulgação e distribuição dos livros. Foi preciso batalhar incansavelmente, insistentemente, por espaço nessas duas frentes, mostrando às livrarias, distribuidoras e aos meios de comunicação que pautam o mercado editorial como o nosso trabalho possuía relevância e merecia algum espaço. Foi preciso fazer muitos contatos, dar muitos telefonemas, enviar muitos e-mails e até contratar serviços pontuais para inserção em alguns canais. Nutro certa persistência e obstinação em querer ver os nossos livros fisicamente disponíveis e ao alcance dos leitores, ao invés de aceitar que eles devem se recolher ao público que nos acompanha virtualmente. É claro que nós criamos algumas linhas de fuga do sistema hegemônico de distribuição e divulgação de livros, seja participando de feiras independentes de publicações, vendendo pelo nosso site, divulgando através de página no Facebook e enviando mailings, mas eu, sinceramente, acredito muito no encontro casual que há entre os livros nas estantes e os leitores que frequentam as livrarias. E também no conhecimento que os leitores tomam dos livros através das resenhas e pautas de lançamentos nos jornais, revistas e sites especializados. Bom, não digo que essa dificuldade de inserção foi totalmente superada. A cada novo livro é uma nova batalha que se joga e uma nova insistência, mas os canais já abertos e a identidade que temos prezado em nosso catálogo tornam as coisas um pouco mais fáceis hoje em dia. Penso que não há melhor argumento de defesa e apresentação que o próprio catálogo, e acredito que temos feito um bom trabalho! E para além dessa questão, a maior dificuldade agora tem sido meu desdobramento em mil e uma funções com um catálogo que cresce cada dia mais… A sobrecarga de tarefas a cumprir está um pouco além da conta. Uma prova disso é que precisei pedir a você vários novos prazos para entregar essa entrevista! Risos…

E quais são as partes boas?

As partes boas são a maioria, e sou completamente apaixonada pelo que eu faço, apesar das dificuldades que se impõem e do cansaço acumulado pelas tantas tarefas concomitantes e urgentes que nos chamam o tempo todo. Não me enxergo mais fazendo outra coisa! Nesse tempo conheci pessoas incríveis e travei muitas parcerias, em vários âmbitos. Quando vou a feiras em outras cidades e vejo algumas pessoas passarem pelos nossos livros e dizerem: “Eu tenho esse, esse e esse”, “Eu conheço esse”, “Eu já li esse”, “Fulana me falou desse” etc, sinto que o dever foi cumprido. A verdade é que a Relicário, antes de ser uma empresa e um CNPJ, é a concretização de um desejo íntimo com vistas à alteridade, à projeção para o fora. Prezo imensamente a partilha e gosto de testemunhar a abertura de novas possibilidades. Acredito na ideia de que os livros conectam tempos e espaços, criam comunidades e alargam nossa experiência, propondo outros campos do possível. É um dispositivo de encontros e proposições. Como uma pessoa que produz essa espécie de objeto aberto, me sinto um pouco na borda das coisas, testemunhando um antes e um depois. Ou seja, ao trazer à existência material e dar forma àquilo que estava em estado bruto, para em seguida lançá-lo à frente e torná-lo público e disponível, me sinto mesmo realizando alguma espécie de rasgo no real, de desestabilização em alguma ordem simbólica. Pode ser uma visão fantástica e exagerada do que significa editar e publicar, mas eu vejo realmente essa potência a cada vez que concluo a edição de um livro e o deixo seguir seu caminho.

Como você enxerga o papel de uma editora numa cena literária como a brasileira?

Penso que as editoras deveriam ter ciência de que ocupam um papel crucial na formação da sociedade, e de que suas escolhas reverberam enormemente na manutenção ou na mobilidade dos lugares ocupados pelas pessoas. Uma editora pode optar por apenas refletir uma ordem dada ou se comprometer a subvertê-la, justamente porque ocupa o espaço privilegiado de produção e promoção que mencionei acima, capaz de contribuir para a instauração de outra ordem ou ao menos inspirá-la. Sendo mais específica, na medida em que as editoras desnaturalizam suas práticas e param pra pensar que estão apenas reproduzindo hegemonias, outros atores-AUTORES podem entrar em cena, e um novo cenário pode se descortinar. A cena literária brasileira “oficial” é marcada pelo sexismo e pelo racismo estruturais que nos constituem, como foi constatado pela pesquisa de Regina Dalcastagné, que chegou ao resultado de que mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras entre 1965 e 2014 foram escritos por homens e 90% escritas por brancos. Sendo assim, o papel de uma editora numa cena literária como a brasileira deve ser a de pensar sua responsabilidade nesse tipo de desigualdade tão gritante.

Você trabalha com uma missão editorial? Como vê o perfil da editora?

Acho que respondi essa questão quando me perguntou sobre as “partes boas” do trabalho. É interessante as respostas coincidirem, pois faz sentido que a questão da missão coincida com o que eu considero ser a parte boa. Ainda bem, né? Mas para complementar um pouco e trazendo mais a questão do perfil editorial em si, na descrição que disponibilizo no site, coloco assim: “Queremos dar continuidade à função mais cara que o livro escrito possui: preservar e divulgar os saberes e memórias postos em letras e palavras por seus autores”. Ou seja, do ponto de vista das próprias edições não estou em busca de inovação e de reinvenção da roda, mas sim de fazer da melhor forma possível esse objeto que é produto de forma e conteúdo, de espírito e materialidade. Ao mesmo tempo em que trabalho o texto em seus vários aspectos, quero também que ele tenha a melhor morada: um projeto gráfico confortável para o leitor e uma linguagem visual contemporânea, que proporcione também alguma experiência estética. Complemento ainda com o que expus acima, em relação à responsabilidade social que as editoras devem assumir.

E a parte gráfica da publicação de livros? O que é importante para você na hora de publicar?

Essa parte demanda de nós bastante atenção e preocupação, e pra mim é tão importante quanto o trabalho com o texto. A maioria dos livros são feitos pela minha amiga e parceira Ana C. Bahia, uma designer bastante experiente em design editorial. Em alguns casos também convido outra amiga, a Carol Gischewski, que também faz um lindo trabalho. Acho que nós 3 estamos afinadas na ideia de que forma e conteúdo devem estar em equilíbrio e diálogo. O que não quer dizer que o design deva se apresentar didaticamente e espelhar diretamente o conteúdo, mas de que ele é um dos modos de apresentação do texto. Temos os paratextos do livro, que são os textos de orelha, quarta-capa e prefácio, mas a capa e o projeto gráfico também podem servir como apresentação e convite à leitura. De maneira geral, gosto dos livros com um conteúdo gráfico elegante e equilibrado. Bem trabalhados, mas que não resvalem no fetiche. Queremos um livro que se distinga, mas que aproxime, e não intimide.

Que tipo de livros você sente falta de ver no país?

Traduções e mais traduções! Podemos notar isso na universidade, quando muitos dos textos a serem lidos não contam com traduções para o português. Acho que deveríamos investir mais em traduções, aproveitar os apoios institucionais que as embaixadas oferecem (sim, temos vários programas de apoio à tradução!) e trazer autores para nossa língua, seja de teoria ou literatura. Assim nos tornamos mais próximos, ampliamos nosso conhecimento e diminuímos as fronteiras de entendimento entre nós. Melhor ainda se tais traduções se preocupassem também em buscar livros e autoras/es para além do centrinho óbvio do mundo, como Europa e Estados Unidos. Da Argentina mesmo, nosso país vizinho, latino-americano como nós, há um déficit enorme de traduções. Um exemplo bem didático, e que me diz respeito, é a tradução da Alejandra Pizarnik, a poeta argentina mais importante do século XX, cuja poesia publicada só chegou agora até nós, através da Relicário. Mas vejo que as pequenas editoras estão de olho nessas questões, diagnosticando as faltas e trabalhando para que elas diminuam.

Como é o processo de aquisição de livros da Relicário?

A Relicário conta com duas linhas editoriais: uma de livros teóricos/acadêmicos/ensaísticos nas áreas de filosofia, estética/filosofia da arte, teoria/crítica literária e psicanálise; e outra linha de literatura, na qual publicamos autores nacionais e investimos em traduções de autores pouco lidos e/ou nunca traduzidos no Brasil. Para a linha teórica, a maioria dos livros chegam externamente, através da apresentação de originais. Nós contamos com um conselho editorial composto por acadêmicos das áreas em questão, que fazem a avaliação e nos dão o retorno sobre a qualidade e pertinência dos textos que recebemos. Entretanto, cerca de 20% dos livros da linha acadêmica foram projetos editoriais autorais, que partiram do meu próprio desejo de publicação (por exemplo, a segunda edição de Antiga musa, de Jacyntho Lins Brandão; a Coleção Estéticas, de tradução de autores estrangeiros da área; As desordens da biblioteca, de Muriel Pic, o livro Literatura de esquerda, do argentino Damián Tabarovsky, dentre outros). Os livros de literatura nacional podem seguir dois caminhos: serem apresentados pelos autores ou serem buscados pela editora, passando sempre pela minha avaliação. Os livros a serem traduzidos podem ser sugeridos por membros do conselho, amigos e conhecidos, ou escolhidos por mim. A intenção não é publicar clássicos já bem conhecidos pelo público, mas escritores ainda pouco explorados que carecem de traduções para o português. Me preocupo muito com a identidade do catálogo e evito atirar pra todos os lados.

Qual é, para você, o papel de um editor?

Acho que falei sobre isso em praticamente todas as respostas anteriores. Mas pode haver, ainda, outra camada possível de resposta, e que tem como origem um ato-falho que me aconteceu. Uma vez eu estava conversando com uma amiga que estava grávida e estávamos falando de adoção. Eu disse: “eu também tenho vontade de editar”. Caímos na gargalhada, pois ao invés de adotar eu disse editar, o que pra mim revela muito sobre o papel do editor (e sobre mim, claro. Risos). O papel é justamente esse: adotar. Cuidar da melhor forma possível daquilo que foi ofertado por outra pessoa. Oferecer morada e cuidado ao texto, que antes de chegar até você passou por toda uma história de trabalho e afetividade junto a seu autor/a. Devemos ter muito respeito com o texto de outra pessoa, e não tratá-lo como mais uma matéria-prima do seu próximo produto. Acho legal que um dos sinônimos para editora seja também “casa editorial”, pois antes de o livro chegar ao espaço público (seu lugar genuíno, afinal ele é uma PUBLICAÇÃO), ele habita uma casa e passa por vários processos de transformação. Sobre as funções de um editor, vou falar das minhas: eu coloco a mão na massa na produção editorial de todos os livros, e para que o processo siga em frente, devo acompanhar e aprovar todas as etapas (demando e aprovo o design; demando e aprovo a diagramação; antes da impressão faço sempre uma atenta revisão de provas em todos os livros; peço orçamento em gráficas, etc). Não consigo conceber a ideia de colocar no mundo um livro “Relicário” sem que tenha passado pelo meu olhar. Jamais serei apenas uma “Publisher”. (Outro ato-falho na escrita aconteceu agora, ao responder essa questão: quando eu escrevi “grávida”, a palavra que saiu foi “gráfica”. Juro!)

E o autor? Como você acha que o envolvimento do autor deveria ser durante o processo de publicação?

Na Relicário há um diálogo efetivo com os autores em praticamente todas as etapas de produção do livro: na revisão, na aprovação do projeto gráfico, na divulgação, etc. Essa é a vantagem das pequenas editoras, pois quanto menor a estrutura, menores são as mediações internas, tornando mais próximo o contato com os autores e com todos os profissionais do livro. Assim, atendemos melhor as demandas, nos comunicamos de modo mais direto e chegamos juntos a resultados em que todas as partes ficam satisfeitas. Na Relicário, por exemplo, jamais prosseguiremos com uma capa que não foi aprovada e desejada pelo autor, o que vemos acontecer em várias outras editoras que se consideram donas de todo o processo, relegando o autor a um papel secundário.

Quais são as próximas publicações da Relicário?

Não vou falar tudo pois vai ficar um pouco exaustivo, mas alguns são: Bruno Schulz conduz um cavalo, de Leda Cartum, com desenhos de Marcos Cartum; Eu nunca fui ao Brasil, do poeta austríaco Ernst Jandl, com tradução de Myriam Ávila; Palmström, do poeta alemão Christian Morgenstern, com tradução de Ricardo Domeneck; dois livros na área de literatura comparada, que venceram os prêmios ABRALIC 2017; As máquinas celibatárias, de Michel Carrouges, com tradução de Eduardo Jorge e em co-edição com a editora n-1; Janelas irreais – um diário de releituras, de Felipe Charbel; Escrever sem escrever: a literatura por meios de apropriação, de Leonardo Villa-Forte; Eisejuaz, da argentina Sara Gallardo, com tradução de Mariana Sanchez. E mais uma dezena, acredito. Já estamos jogando livros para 2019!

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Autor
Jornalista, com especialização em Publishing pela NYU e mestranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Já trabalhei na revista Ragga e nos jornais Estado de Minas e O Tempo, onde fui editora adjunta do caderno de Cultura e atualmente escrevo uma coluna semanal. Apaixonada por literatura, fundei a revista Chama, que publica novos autores belo-horizontinos.

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