Renascer

 Foto: Leopoldo Rezende

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Nascemos na dor e não na solidão como nos parece conveniente dizer: “todo mundo nasce e morre sozinho”. Mentira. Ao chegar e ao nos despedir da vida, tem sempre alguém e, além dessa companhia, a dor. Como uma mãe recém parida de um parto normal sem anestesia (por escolha, por protagonismo e por natureza), ressignifiquei tudo em mim. Parir dói, dói muito, mas existe uma beleza que vai além do rito ou do simbolismo da chegada de alguém ao mundo.

E isso começa pela gravidez.

Gravidez é um processo de ausência dolorosa. Na contramão do que parece, enquanto uma nova vida preenche, você se esvazia. Involuntariamente, na sua própria enchente, embarca-se em um processo de reclusão. Do não reconhecimento de si, o mundo parece estranho. Outro coração ocupa espaço, ouve-se outra batida que não a sua. Tornar-se plural é tornar-se nulo. Ao se recolher, numa tentativa ingrata de juntar suas peças em plena correnteza, você também se desfaz. Resgatar-se é ato em vão. Gerar é ser mesmo esse abismo para uma nova morada.

E, assim, saltei do meu velho barco e, despida de mim, mergulhei na dor e na ausência.

Agora, como raiz de outra vida, vazia do que já fui, me encontro como bicho.

E, como tal, reconheço, hoje, que a natureza sempre triunfará sobre mim. Seja na vida ou na morte, no passar das horas e das cicatrizes, viver, amigo, como parir, dói. Das verdades absolutas, arrisco-me dizer que não sabemos lidar com nenhuma delas. Nem morrer, nem envelhecer, não nos preparamos para o óbvio. E nesse processo, doer é um estado de gerúndio em nós.

A ausência, diante da dor, é o reencontro de si.

A dor nos esvazia e nos conecta ao que realmente importa: ao presente. Se dói, é porque estamos ali, entregues e inteiros naquele instante. Se dói, é porque nos importamos.

Das cicatrizes às memórias, somos feitos das mossas dores desde o nascimento. Estreamos em lágrimas, das nossas e das nossas mães. No batismo da dor, florescemos.

Doer é amadurecer, cair do pé, ser semente e recomeçar. Na dor, nascemos todos os dias.

E na dor, renasci como filha, mãe e mulher.

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

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