Rodrigo, antares ainda mais vermelha

 Foto: Lucas Ávila

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No post de hoje, vou apresentar um texto do Rodrigo Carizu, capricorniano, ator, integrante da quase banda Mascucetas, formada unicamente por pessoas transmasculinas. Durante o ensaio que fizemos, utilizamos elementos que ele quis incluir nos registros: o primeiro binder (faixa que comprime o peito, muito utilizada por homens trans), elementos cênicos, alegorias e, claro, muito vermelho.

“A bicicleta do menino era vermelha. O batom da mulher era vermelho. A mãe usava calças e shorts vermelhos. A menstruação vermelha. O tapete vermelho. Seu tênis era vermelho. A camiseta vermelha. O cabelo dela era vermelho. Sua cueca era vermelha. Sua sunga vermelha. A calcinha vermelha. A pele vermelha. Gostava de flores vermelhas. E o semáforo estava vermelho! Sentado numa cadeira vermelha.

As unhas delas lindas e vermelhas. Sua voz tinha um som vermelho. Quando mais velho, às vezes, seus olhos ficavam vermelhos. Sangue vermelho. O beijo com gosto vermelho. Na maternidade toda vermelha, um parto vermelho! Outdoors e anúncios vermelhos. Entrava em bares vermelhos, com cadeiras vermelhas. Preços estourados em vermelho. Atenção! VERMELHO!

Tinha um gênero vermelho! Os seios vermelhos. Com bicos vermelhos. Grandes lábios vermelhos. Duro, irrigando um sangue vermelho. Bombando! Vermelho! O beijo com gosto vermelho, em meu sexo vermelho! Duas línguas vermelhas. Com lábios vermelhos. O borro do batom vermelho! Seu ar vermelho! Nosso ar vermelho! De alma vermelha! Transbordando um vermelho! Trans Vermelho! Num estado vermelho, de céu todo vermelho, com a energia vermelha, uma áurea vermelha, contemplando o vermelho, que encoberta e cobre tudo, vermelho.

De gravata vermelha. Ouve um grito vermelho! A coleira do cachorro era vermelha! E no outono, corredores vermelhos. De choro vermelho. Sorriso vermelho! Meu gênero vermelho. Nasci vermelho! Num escorregador vermelho, coberto de vermelho por todo o corpo. Com um tapa no bumbum de marca vermelha. Lágrimas vermelhas. Encoberto em um pano vermelho. Ri, vermelho! Meu gênero é vermelho.”

Rodrigo Carizu, TransMasculine Não-Binárie, 22 anos. Ator e Performer, formado em Artes Dramáticas – Teatro pelo CEFAR(T). Membro do coletivo Academia TransLiterária, artivista junto ao MONART – Movimento Nacional de Artistas Trans, também atua na “Casa Di Cássia”, produzido e idealizado por Mari Di Cássia, com assessoria artística e venda de produtos que inspiram e transmitem mensagens de amor e respeito. É membro da Tipo Banda Mascucetas, formada apenas por Homens Trans e Transmasculines. Pesquisa relação do corpo e espaços, vazados e fechados, como relacionar com outros lugares, corpo-espaço. Vêm desenvolvendo trabalhos baseado na busca pelo “Vermelho”, como essa cor se relaciona com os corpos, com (seu próprio gênero e não gênero) e o mundo (relações extra-gênero), agora com Red Bo(d)y.

Rodrigo Carizu ocupa um lugar cativo no coração deste que vos escreve, é um capricorniano de pés alados que carrega consigo um corpo e alma revolucionárias — que nem mesmo ele sabe o quão fortes são. A concepção desta foto, como de todo o ensaio que fizemos, foi ideia dele. De mim partiu apenas o clique. O sentimento em mim é de que ele talvez mostre (quase) tudo o que alguém deveria ter sido ou falado algum dia. É como se viesse de um futuro distante e vivo para, em um só grito, sacudir estruturas ultrapassadas e arcaicas. A primeira vez que o vi em cena me veio à mente a música “Rosa dos Ventos”, de Chico Buarque, um mar de incertezas e quebra de conceitos, “pois transbordando de flores, a calma dos lagos zangou-se, a rosa-dos-ventos danou-se, o leito do rio fartou-se e inundou de água doce a amargura do mar. Numa enchente amazônica, numa explosão atlântica, e a multidão vendo em pânico, e a multidão vendo atônita, ainda que tarde, o seu despertar”.

Voa, Rodrigo.

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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