Chama: o roteiro literário de Belo Horizonte

 Rosarium, sebo em BH Foto: Caçadores de Bibliotecas

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“Nossa, mas nunca tem nada de literatura em BH.”

Antes de tudo e para quem não chegar ao fim do texto: “Tem sim, tá tudo aqui”.

Retornando à programação normal…

Olha, normalmente prefiro me manter calada. Deixa cada um ser cada um e pensar o que quer. Não sou fiscal de achismo. Mas algumas conversas fazem o sangue ferver e, para mim, o mito de que Belo Horizonte não tem nada para fazer e não tem cena literária é o mesmo que jogar lenha na minha fogueira interior.

Não é frustração com quem profere a declaração, juro. É frustração com o fato de que o calendário literário da cidade é até bem-recheado, mas só fica sabendo dele quem faz parte de pequenos e apertadíssimos círculos de amizades. E, para entrar nesses círculos, é preciso saber o que está acontecendo na cidade. O famoso dilema Trakinas. Ou o ovo e a galinha. Pode escolher.

Além disso, o Facebook, nosso amigo que mostrava o que livrarias, cafés, instituições culturais e universidades planejavam, decidiu que só devemos saber do que é de interesse dos amigos e da família. Pois é, o dilema Trakinovo ficou ainda mais intenso. Quem não tem amigos ou família nesses círculos fica mesmo de fora.

Verdade seja dita, quem dizia a frase que começa esse texto era eu mesma. Olhava para a cidade e não enxergava a literatura. Tinha o FIQ com seus quadrinhos independentes e sua comunidade de artistas e tinha a Bienal do Livro de Minas, que não mostravam muita coisa do Brasil, imagina então de BH.

Foi nesse cenário que lancei, em parceria com a engenheira, professora e diva da moda Didi Starling e com a colaboração de dezenas de autores e ilustradores, a primeira edição da revista Chama, publicada em 2016. A ideia inicial era lançar algo similar a uma mensagem na garrafa e encontrar quem mais queria provocar uma ebulição na cena literária. O resultado, no entanto, foi a percepção de que já havia uma vida literária na cidade. Ela só era difícil de enxergar.

Acabou que esses não tão curtos anos após o lançamento da revista foram de efervescência do campo editorial de BH. A partir de 2015, vimos surgir feiras de publicações independentes de peso, como a Faísca e a Textura. Isso sem falar nas editoras. Duas casas que têm agitado a cidade e das quais já falamos aqui no Guaja, a Moinhos e a Relicário, existem há poucos anos. Obviamente, nada disso é resultado direto da revista, mas cresceram diante dos nossos olhos, ocupando lugares de destaque.

Isso sem falar do pessoal que já trabalha com isso há mais tempo, como o agitador literário José Eduardo Gonçalves, a pesquisadora e poeta Ana Elisa Ribeiro, o incentivador das letras Lucas Guimaraens, os livreiros-editores Alencar Perdigão e Claudia Masini e tantos outros que têm intensificado seus esforços nos últimos anos [vai por mim, dá um Google neles].

Com a ajuda do GUAJA, eu e a escritora Val Prochnow temos contado por aqui sobre alguns autores e editores da cidade. Mas, quando consideramos a quantidade de lançamentos, conversas e eventos desse universo, percebemos que era necessário unir esse olhar aprofundado com outro. Algo que permitisse aos leitores da Chama quebrar o dilema Trakinovo.

O resultado é a newsletter da Chama, que reúne, semanalmente, TODOS os eventos de literatura e livro da cidade.

Ainda não é uma solução em grande escala. Muita gente que poderia viver essa faceta da cidade de forma mais intensa sequer vai ficar sabendo dessa efervescência editorial. Mas é uma forma de começar a mudar a percepção de quem ainda não sabe do prazer de descobrir gente que ama ler se encontrando pertinho de casa, descobrir um livro sobre o pessoal que morou ali na rua de cima, descobrir um outro jeito de viver o texto que não se resume à leitura em solidão. É mais um passo para mostrar que tem, sim, coisa de literatura em BH.

HABEMUS LITERATURA. Todas as terças-feiras. Assinatura gratuita.

Autor
Jornalista, com especialização em Publishing pela NYU e mestranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Já trabalhei na revista Ragga e nos jornais Estado de Minas e O Tempo, onde fui editora adjunta do caderno de Cultura e atualmente escrevo uma coluna semanal. Apaixonada por literatura, fundei a revista Chama, que publica novos autores belo-horizontinos.

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