Roupas que Contaram as Histórias do Ano

 Foto: Tyler Mitchell

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2018 foi, sob todas as perspectivas, um ano que nos colocou de cabeça para baixo. Algumas rupturas nos encheram os olhos, e outras fizeram com que chorássemos diante das telas. E se o ofício jornalístico é reduzido por técnicas de firehosing, crises em conglomerados de comunicação, governos tirânicos e a manipulação de dados, nós ainda podemos retomar as nossas narrativas se nos dispusermos a entender seus signos, origens e expressões visuais. Para quem cresceu entre araras, carreteis e retalhos, as manchetes nas bancas de revistas se estamparam em grinaldas, tutus e guarda-chuvas manchados de sangue. Apresento, a seguir, as Roupas que Contaram as Histórias do Ano de 2018.

Fonte: The Observer

O vestido preto: o movimento #MeToo, criado em 2009 por Tarana Burke, se dissemina pela indústria cinematográfica com o Time’s Up, se estende ao mercado literário, publicitário e outros segmentos. O que começou com a denúncia a Harvey Weinstein em outubro de 2017 culminou na retirada de mais de 200 homens de seus cargos, segundo levantamento do New York Times, na condenação de Bill Cosby, no emocionante discurso de Terry Crews e nas recentes denúncias ao médium João de Deus. O traje preto, antes uma abstenção dos red carpets, assume o grito das mulheres que lutam contra os seus agressores e as consequências dos traumas causados por eles.

Mandel Ngan para Vanity Fair

A jaqueta Zara de Melania Trump: se havia alguma dúvida sobre o posicionamento de Melania em relação às políticas excludentes de Donald Trump, elas foram sanadas pelo guarda-roupa. Até junho de 2018, mais de 2.000 jovens foram separados de seus pais, consequência da política de “Tolerância Zero” do governo Trump. Em visita a um dos centros de detenção de crianças no Texas, Melania usou uma jaqueta Zara de U$39, onde lia-se: “Eu não me importo. Você se importa?”. Em outubro deste ano, em sua primeira turnê solo por Gana, Quênia, Egito e Malawi, a primeira-dama usou um chapeu pith (típico dos caçadores de marfim que atuam na região desde o século XIX).

A corrente dourada: crises migratórias na Europa e nas fronteiras entre o Brasil e a Venezuela evidenciam reações de xenofobia e neo-nazismo em todo o mundo. O retrato absurdo de uma criança aos prantos em um centro de detenção estampou a capa da TIME e a possível criação de campos de refugiados para venezuelanos preocupam entidades humanitárias que pouco podem fazer diante dos muros que se erguem.

Os versos “a chain hits my chest when I’m bangin’ in the radio”, da rapper sudanesa M.I.A., ecoam diante da exibição do documentário “Matangi/Maya/M.I.A.” (Steven Loveridge), vencedor do Sundance. A cantora envolveu-se em crises após denunciar as ações do governo americano no Oriente Médio e retratou a situação dos cidadãos da Síria e da Arábia Saudita nos vídeos de “Borders” (M.I.A., Sugu Arulpragasam e Tom Manaton, 2017) e “Bad Girls” (Romain Gavras, 2012).

A farda: o Brasil torna-se um laboratório de experimentos neoliberais e, sob técnicas de firehosing, uma forte ascensão de movimentos conservadores e um poder judiciário enfraquecido, elege o ex-soldado de reserva Jair Bolsonaro como presidente da República.

Foto: FFW

Garras kitsch: as mãos ganharam holofotes no visual e anunciam mais mudanças na silhueta feminina. Contrariando expectativas, o termo “nail art” recuperou seu prestígio e as mulheres ganharam garras felinas. Rosalía, a nova queridinha do pop, as usa para expressar o apelo passional da arte flamenca. Rihanna as reforça com aneis e tatuagens.

Foto: Vogue

Sutiã 3X Savage X Fenty: a Savage X Fenty, marca de lingeries de Rihanna, transforma o mercado com um discurso autêntico que não só passa pelo body positivity como também pela diversidade e pelo empoderamento da mulher em todos os seus momentos. No desfile da marca (um dos mais marcantes do ano), as modelos romperam o olhar objetificador da plateia e exploraram, com autonomia, o cenário e as próprias personalidades em suas performances.

Foto: New York Times

O decote canoa de Meghan Markle: em maio, Meghan Markle casa-se com o príncipe Harry e torna-se a Duquesa de Sussex em uma cerimônia que rompeu com uma série de protocolos da família real britânica. Usando um vestido Givenchy, Meghan conduziu a si mesma até o altar, não escondeu as próprias sardas e trouxe o Kingdom Choir, formado apenas por artista negros e conduzidos pela maestrina Karen Gibson, para embalar os convidados. “O Casamento Real e Meghan Markle vêm para mostrar que, por mais que a coisa toda seja, de fato, absurda em um ano que traz tantos questionamentos políticos e tantas cobranças com relação às dívidas culturais que a Inglaterra ainda tem com a África e ainda vai ter por muitos e muitos anos, nós mulheres negras não vamos mais abdicar dos nossos clichês.”, afirma Duds Saldanha ao portal Valkírias.

A camisa da Seleção Brasileira: o Brasil participa de mais uma Copa do Mundo munido de atletas carismáticos e muitos memes, como o Feiticeiro do Hexa. A camisa dos Canarinhos, contudo, manteve o tom anti-político dos movimentos que se abrigam na luta “anticorrupção” e marcou a expressão visual do conservadorismo no país.

Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, ouve Bruna Silva, mãe do estudante Marcus Vinícius, morto no Complexo da Maré. Foto: Agência Brasil

O uniforme escolar: no vídeo de “This is America”, de Childish Gambino (Hiro Murai), os estudantes dançam alucinados diante das câmeras enquanto se refugiam de tiros. No Rio de Janeiro, Marcus Vinicius da Silva, 14 anos, foi morto por policiais militares no complexo da Maré. O adolescente estava a caminho da escola, e morreu nos braços da mãe, sentindo sede. A ambulância não chegou a tempo devido aos impedimentos da operação policial. Diante das câmeras, a família ergueu a camisa do uniforme de Marcus.

Cabelo black-power indomável: a vereadora e ativista Marielle Franco é assassinada no Rio de Janeiro em 13 de março. 13 tiros foram disparados contra o veículo, matando também o motorista Anderson Pedro Gomes. Formada em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense, Marielle se consagrou também pela publicação da dissertação “UPP: a redução da favela a três letras”. Após a sua morte, 5 projetos de lei foram aprovados.

Foto: Reprodução

A calça-vulva de Janelle Monáe: “Pynk” (Emma Westenberg) foi, definitivamente, um dos vídeos do ano e escancarou uma das tendências mais fortes das artes visuais: a vulva. Ela estava nas máscaras de James Merry para Bjork, nas calças de Janelle e nas sugestivas imagens de gomos de frutas que ganharam o Instagram.

O guarda-chuva de Rodrigo: Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, 26 anos, esperava a mulher e os dois filhos sob um guarda-chuva preto, portando um celular e uma bolsa canguru quando foi atingido por 3 disparos. Segundo depoimentos, policiais da UPP confundiram o guarda-chuva de Rodrigo com um fuzil e o canguru com um colete à prova de balas.
Rodrigo atuava como vigia e, assim como a alegre Mary Poppins, esperava proteger a família com a simplicidade de um guarda-chuva numa noite de tempestade. “Meu filho de quatro anos já sabe o que é tiroteio”, disse Thayssa de Freitas, esposa de Alexandre, ao jornal Ponte.

O tutu preto de Serena Williams: encarou a proibição de Roland Garros como uma oportunidade para brincar com conceitos de feminilidade e entrou nas quadras do torneio francês com um tutu assinado por Virgil Abloh (diretor criativo da Louis Vuitton Hommes). A peça é parte de uma coleção desenvolvida em parceria com a Nike e batizada de “The Queen”.

Foto: Tyler Mitchell

A coroa de flores: como aponta a reportagem de Ligaya Mishan para o NYT, as coroas de flores surgiram inesperadamente nas grandes cidades da China há 3 anos atrás e já marcavam presença nos festivais de música. Uma rebelião silenciosa contra a supressão dos espaços naturais.

Na primeira capa da Vogue americana clicada por um fotógrafo negro, Tyler Mitchell, Beyoncé usa as flores para a sua revolução nada silenciosa. Na edição britânica, Rihanna usa o arranjo Isamaya FFrench e Makoto Azuma para as lentes de Nick Knight e evoca as sobrancelhas de Edith Piaf.

Tênis Balenciaga: Demna Gvasalia continua zombando da nossa cara e botou todo mundo para usar os “tênis do papai”.

Lenço verde: na Argentina, mulheres inspiradas pelo “Ni Una a Menos” utilizaram um lenço verde com as frases “educação sexual para decidir, anticoncepcional para não abortar, aborto legal para não morrer” para se manifestar a favor de um projeto de lei pró-aborto que circulava na Câmara dos Deputados. A mobilização, contudo, foi novamente vencida no Senado por movimentos regidos por convicções religiosas.

Gele (lenço nigeriano): a Nigéria oficializou a proibição da mutilação genital feminina. O presidente Goodluck Jonathan termina o seu mandato com uma nova postura diante da África Ocidental.

Brincos de argola, croppeds, sobrancelhas preenchidas, extensão de cílios e boca nude: todo mundo virou a Dua Lipa.

Larissa Zaidan para VICE

O pompadour de Ariel Barbeiro: de Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo, Ariel Franco conquista o mundo com o “blindado”, penteado que envolve um pompadour, degradês e tintas carnavalescas. O barbeiro aprendeu o ofício na prisão após passar anos no tráfico e enfrentar até mesmo uma solitária. Hoje, ele está com a agenda fechada, ocupando-se de uma turnê internacional para divulgar a sua técnica. E ai de quem duvidar dele!

Autor
Jornalista formada em Comunicação Social pela UFMG e estudante de Design de Produto na UEMG. Engulo livros e revistas, mas não cuspo fogo! Acredito que a moda é um potente meio de expressão das particularidades de cada um. Mas quando percebi que pessoas como minhas amigas e eu não estávamos nas revistas que comprávamos, desassosseguei de vez. A gente adora tendência, mas o propósito e a consciência vêm em primeiro lugar. E foi movida por essa busca que me engajei em cobrir moda com os olhinhos brilhando e o dedo em riste. Colaboro com a Review Slow Living e publico narrativas livres em meu perfil no Medium.

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