Rua Célio de Castro, Floresta: detalhes de memórias

 Foto: Ivan Araújo

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Da varanda da casa da Rua Célio de Castro, no bairro Floresta, o olhar atravessa o Centro e só para na Serra do Curral. Como sugere o desgastado ladrilho sob os pés, suspeita-se que infinitas histórias já foram vividas ali — e a partir dali.

No início do século XIX, o Floresta nasceu como um subúrbio, pois foi um dos primeiros locais habitados por operários que trabalharam na construção da capital. Na Célio de Castro, antiga Rua Rio Preto, bem perto da linha do trem, também morava quem trabalhava nas estações ferroviárias — a porta de entrada para aqueles que embarcavam para a nova capital. Os perfis de moradia se alternavam. Casarões transformados em pensões consolidaram uma imagem de um reduto boêmio.

Sobre o nome do rua, muitos pensam hoje ter sido uma homenagem ao ex-prefeito Célio de Castro (1932-2008). Mas há controvérsias. O nome seria uma referência a um admirado dentista que viveu ali, Célio Garrão de Castro, que além de seus clientes recebia pessoas carentes para tratamento gratuito. Após a sua morte, a vizinhança teria pedido a alteração do nome em sua reverência.

Os depoimentos a seguir fazem parte do livro Casa e Chão, uma parceria entre os projetos Chão Que Eu Piso e Casas de BH, publicado por financiamento coletivo em 2016, e resgatado nesta série publicada pelo GUAJA. Já falamos aqui sobre pisos guardiões de histórias encontrados na Lagoinha e no Santa Tereza.

“Moro aqui há 53 anos, quando a rua ainda se chamava Rio Preto e da varanda dava para ver o Ribeirão Arrudas. Havia muitas pensões por aqui e, por isso, a rua era mal vista. Não era o sonho de consumo da época, mas era onde eu podia morar com a minha família. Meus filhos tiveram uma infância feliz aqui, com direito a quintal, balanço, escorregador e piscina. Os vizinhos amigos vinham para cá e a porta estava sempre aberta. Ainda hoje gosto de me sentar na varanda para ficar olhando o que não posso ver mais, o que os prédios tamparam. A casa foi tombada e não tenho dinheiro para mantê-la como era. Os cupins estão levando ela embora”, conta Heliane Aparecida Diniz Ribeiro, moradora da Rua Célio de Castro, ao livro Casa e Chão.

“Meu avô Pedro Mendes, capitão da Guarda Nacional, veio para Belo Horizonte na época da construção da capital e foi ele quem ergueu esta casa. As iniciais do nome dele estão na fachada. Eu morei aqui com os meus pais e trabalhava pertinho, na ferrovia, onde fui chefe da arrecadação da estrada por 32 anos. Recebia as bolsas de dinheiro que vinham pelo trem. A casa é a mesma, alterada apenas pelos cupins. A melhor lembrança que tenho aqui é de uma quadrilha que aconteceu no quintal, nos anos 1950, com toda a minha família, vizinhos e amigos. Todos a caráter, cantando em francês e dançando muito”, lembra Ângelo Roberto Mendes de Oliveira.

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Mais registros e histórias você encontra no livro Casa e Chão, do arquiteto Ivan Araújo (Casas de BH) e das jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena (Chão Que Eu Piso), vendido no GUAJA (Av. Afonso Pena, 2881, BH) e por meio das redes sociais dos projetos.

Autor
Idealizado pelas jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena em 2013, o projeto vem catalogando fotos de pisos encontrados em construções históricas de todo canto do mundo. Já são mais de 250 histórias e 12.000 registros de pisos enviados por colaboradores de vários países, como México, Polônia, Vietnã, Marrocos, França, Itália e Estados Unidos. A ideia é não apenas destacar a beleza estética do chão, como também chamar atenção para as histórias que esses pisos testemunharam e o estilo que eles carregam. Se juntou, em 2016, ao projeto Casas de BH para lançar o livro Casa e Chão — Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte.

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