A dialética entre viver e ser gourmet: onde foi que a gente se perdeu?

 Foto: Shari Sirontnak via Unsplash

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No trajeto meu de todo dia, paro num sinal da avenida Raja Gabaglia. Ali resiste uma bolha de pobreza espremida por colossais prédios espelhados e concessionárias de carros de luxo; amostrinha singela dos nossos “Brasis”. Pela janela do carro vejo uma vendinha com anúncios escritos a giz. Num deles lê-se: chup-chup gourmet R$ 1,00.

Eu escrevo crônicas gastronômicas e isto me impacta de maneira especial. Para além da discussão da gourmetização das coisas com a finalidade de elevar o seu valor comercial, penso que estamos vivendo um processo de gourmetização da vida. Aliás, várias reflexões existenciais minhas vieram, de alguma forma, a partir da comida. É uma associação indissolúvel no meu inconsciente glutão: comida = vida.

A vida gourmetizada diz pra gente que não importa muito o que é e sim o que parece ser. Uma espécie de efeito Denorex aplicado irrestritamente. Neste estilo de vida, os substantivos concretos se pulverizam se não estiverem fartamente guarnecidos de adjetivos, de preferência no grau superlativo. Um vestido perde a função se não for um vestido top, ou melhor, um vestido top das galáxias. O antigo salão de festas do seu prédio foi dormir e acordou “espaço gourmet”. Aliás, não se tem notícias de pessoa bem-sucedida na vida que não tenha uma varanda gourmet pra chamar de sua.

Em algum momento a gente resolveu cobrir o mundo com uma nova roupagem. Ficou mais bonito, mais agradável. Então, foi se acostumando a ver tudo e todos paramentados dessa forma. Com isso passamos a ter muita dificuldade em acessar (e aceitar) o mundo de cara lavada. Sabe quando somos crianças e brincamos de “vamos fazer de mentirinha”? Acontece que gente se viciou nisso e a brincadeira foi perdendo a graça.

Impossível não relacionar esse fenômeno ao fantástico episódio “Nosedive” da terceira temporada da série britânica Black Mirror. A trama descreve uma sociedade que gira em torno de se conseguir a mais alta pontuação numa escala de adequação social. A personagem principal Lacie é uma cidadã aplicada e determinada a fazer, custe o que custar, parte dessa fina-flor bem ranqueada. Mas a vida é real e de revés. A nossa mocinha ideal, bela, recatada e adaptada toma uma bela rasteira e mergulha de nariz (e de cara) na farsa coletiva com a qual compactua, sustenta e da qual padece. Ficção?

Hoje todo mundo quer ser gourmet. É fundamental se sentir especial e distinto. RIP o comum, o ordinário. Só tem valor se for “diferenciado”; a palavra do momento. Eu fico pensando que talvez seja essa a origem da absurda pasteurização social que estamos vivendo. Será que com a necessidade de inventar tanto “diferencial” tudo acabou por ficar igual outra vez?

O meu raciocínio nesse momento, desagua num profundo suspiro mental: que vidinha mais fajuta a nossa! Tiranizada pelo “must have” na busca de uma pretensa singularidade vamos formando um coletivo de clichês. E é difícil escapar dessa cilada porque quando você viu, já foi: tá lá no seu closet a “it bag” sensação que você precisava ter por que a “it girl” (designação perfeita da coisificação das pessoas) desfilou por aí. E pra ficar macérrima igual a ela, você começa o seu dia comendo algo que foi feito pra parecer pão, que pode até ter cheiro de pão, mas definitivamente não tem gosto de pão.

Falando novamente em comida (sempre), tem me chamado a atenção uma nova tendência no cenário gastronômico da nossa cidade. Chefs renomados e reconhecidos pela sua haute coisine estão se dedicando a abrir botequins. Instalados em regiões afastadas do circuito da zona sul, provavelmente para fugir dos aluguéis indecentes e reforçar o conceito do “despojado”.

Não estou dizendo que tenha algo de errado nisso, mas o meu alerta acendeu. Como ainda não tive a experiência de campo, não posso opinar, mas torço sinceramente para que não seja mais uma arapuca do monstrinho gourmetizador. Espero que essas casas sejam coerentes e alinhadas aos seus propósitos. Já estive em botecos travestidos: botecos que não eram botecos, mas eram cuidadosamente planejados para parecerem botecos. Eram feitos para que o Brasil que vive nos prédios espelhados pudesse experienciar uma simplicidade artificial em segurança. Modéstia de vitrine de equivalência alegórica ao “safari” que oferece aos turistas a oportunidade de experimentar uma “vivência comunitária” ao percorrer os becos da favela da Rocinha no Rio de Janeiro. Engodos fabricados, falácias do modus vivendi gourmet.

Eu assumo minha mea-culpa e confesso que por vezes ainda me surpreendo reproduzindo esse padrão. Por outro lado, tenho uma alergia nata a qualquer tipo de hipocrisia. Acho que a gente pode fazer grandes transformações a partir de questionamentos simples. Por quê? Para quê? — deveriam preceder nossas ações com mais frequência.

Será que estamos de fato desfrutando dos benefícios desse estilo “embrulhado pra presente” de se viver? Ou perdemos a medida, o discernimento entre as coisas e agora sofremos da nossa própria criação? Já cantava o jovem Renato: “O mundo anda tão complicado”.

Minha natureza rebelde se recusa a gourmetizar. Eu quero as coisas e as pessoas pra valer, como elas são; imperfeitas e plurais. A homogeneidade assim como a unanimidade é burra e estéril. O que nos torna especiais não é um efeito beauty qualquer, mas a descoberta da riqueza que existe na nossa própria singularidade.

Eu quero um chup-chup de groselha feito com açúcar e água de origem duvidosa para aplacar esse calorão. E de noite talvez eu queira tomar uma garrafa (honestidade e coerência me obrigam a não escrever “uma tacinha”) do meu champanhe favorito para comemorar a publicação do meu segundo artigo nesse portal feito por/para gente, irrestritamente. E isso tudo pode conviver em perfeita harmonia, sem qualquer juízo de valor. Nada pode nos definir e nos limitar, porque o mundo tem a incrível plasticidade de acomodar toda a multiplicidade que existe e o que mais se quiser inventar. Desejo portanto, que a ilusão habite o campo do sonho e das artes e para a vida, de veras; quero que fique apenas o gosto bom da genuinidade.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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