Show das poderosas?

 Foto: BS Fotografia

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Na terça-feira de carnaval fiz algo pela primeira vez: depois de foliar pelos blocos Magnólia e Peixoto, fui a um evento fechado, no Mirante Olhos D’Água.

Festa legal, gente bonita e tal, mas eu estava lá mesmo pela curiosidade de ver um show da Anitta: ela, Larissa de Macedo Machado, a instituição que melhor funciona no Brasil atualmente. Ela, que é onipresente. Que foi descoberta pela Furacão 2000 aos 17 anos e aos 24 é a artista brasileira de maior destaque na Billboard e no Spotify. Ela, que é poderosa, malandra, que joga na sua cara, mostra as celulites e que inflacionou o mercado de bronzeamento com fita isolante!

Apesar de todo esse sucesso, minhas expectativas não eram altas porque nunca tinha ouvido um comentário destacando sua performance ao vivo nem me impressionado com as apresentações que assisti por vídeo. Ainda bem, porque o que a toda poderosa Anitta entregou foi um show apático e sem alma, bem aquém da aura construída em volta de sua imagem.

Ela entrou vestindo um dos looks do clipe “Paradinha”, mas justo o mais sem graça: sutiã preto e calça camuflada larga. E assim seguiu até o final, sem uma troquinha de roupa sequer. Suas quatro dançarinas seguiram a mesma linha: vestidas sem criatividade alguma, como se tivessem saído de casa para ir à padaria e emendado no
show.

As projeções no telão não ajudaram a compensar a falta de brilho da apresentação. Algumas imagens eram até legais, mas repetitivas e não pareciam exatamente pensadas para cada momento. Alô pessoal que cuida do show, bora se inspirar no que o BaianaSystem vem fazendo e incluir um VJ na equipe?

Sua energia não parecia das mais intactas (o que era de se esperar em meio à sua intensa agenda de compromissos) e minha impressão foi a de que a artista estava funcionando no “piloto-automático”, dançando sem suar e correndo o risco de errar o nome da cidade onde estava a qualquer momento.

Sua banda, bem numerosa, não foi apresentada em nenhum momento e foi quem segurou as pontas até o final, mesmo depois de Anitta desaparecer atrás do palco, não voltando para uma despedida em equipe, uma foto com a galera ou algo simpático do tipo.

Sobre o set list, achei legal sua ideia de fazer covers de hits da axé music, já que estávamos no meio do carnaval e de, além do formato oficial, executar uma versão abaianada de “Vai Malandra”, seu grande hit do momento. Incluir “Envolvimento” da MC Loma e as Gêmeas Lacração sem dúvidas também foi um acerto e acendeu o
público!

Mas, para além dos comentários acima, duas particularidades da carreira de Anitta atrapalham ao vivo: uma é o excesso de parcerias, que faz com que cerca de metade do seu show seja playback, com a execução da voz pré-gravada desses parceiros enquanto ela apenas dança. A outra é a falta de liga entre uma música e outra, já que
cada uma é de um estilo e numa língua diferente (seguindo a perigosa lógica do Spotify que privilegia singles em detrimento de álbuns. Mas bom, isso é assunto para um próximo post).

Na sequência, o Chama o Síndico, banda mineira que surgiu do bloco de mesmo nome e que toca sucessos de Jorge Ben Jor e Tim Maia, entrou no palco mostrando como é que se faz. Mesmo sem repertório autoral e também em meio a uma intensa agenda de shows, eles conseguiram esconder o cansaço, apresentaram versões interessantíssimas, lançaram tiras de papel colorido ao ar e contagiaram a festa com sua alegria. Teve até pedido de casamento em cima do palco.

Ah, e vale destacar que a percussionista Nara Torres estava lindíssima com seu vestido de lantejoulas brilhantes e que, numa próxima, bem que ela podia dar um toque na “Anira” e em suas dançarinas, sugerindo looks mais impactantes como o dela na hora de subir ao palco. Especialmente se o show for no carnaval, a festa mais lúdica do ano, e se o público estiver todo colorido e purpurinado, como era o caso.

Porque poxa, Anitta, a gente te curte. Mas de que adianta investir tanto no figurino dos clipes se na hora do vamo vê você aparece toda basiquinha? Show é show, gata. É pra brilhar os olhos. Com tanto investimento no inglês e na sua carreira internacional, já dava pra ter entendido melhor o significado de “it’s show time”, né?

Autor
Jornalista com especialização em crítica cultural pela Universitat Pompeu Fabra de Barcelona, já trabalhei na MTV Minas, na Globo SP e em diferentes produtoras de vídeo entre Belo Horizonte e São Paulo. Em 2014, criei a Chá Comigo, espaço que ganhou grande destaque pela comunicação e conceito diferentes de qualquer outra casa de chás. Mas, depois de três anos à frente do negócio, resolvi voltar com tudo para a área musical, minha grande paixão!

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