Elas não querem mais ser silenciadas

 Foto: Isis Medeiros

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Nem nunca quiseram.

Se os empecilhos criados para impedir que as mulheres acessem atividades consideradas masculinas são responsáveis por sua baixa incidência nos cargos de poder, a intimidação e a discriminação sofridas quando elas finalmente acessam esses espaços também se configuram como violência de gênero. Situações recorrentes se perpetuam na história mas, especialmente hoje, as plataformas digitais e mídias sociais dão luz a esses casos evidenciando a desigualdade que atrasa a representação feminina na política.

“Negar ou dificultar esses acessos parte de uma estrutura machista que considera que elas não são capazes de exercer cargos de liderança da magnitude de uma presidenta, de uma governadora”, esclarece a pesquisadora das relações entre comunicação e violência contra a mulher, Bárbara Caldeira. Segundo ela, isso leva a uma reafirmação de que o poder de decisão, tanto sobre as pautas gerais quanto sobre as pautas que impactam diretamente os nossos corpos, cabem aos homens. “Perpetuar que outros grupos decidam em relação às demandas urgentes das mulheres, como a descriminalização do aborto e a diminuição do feminicídio, é muito grave”.

Um exemplo de como as questões de gênero não são exatamente prioridades quando a política é feita apenas por homens é termos no páreo das eleições um candidato como Ja.ir Bolso.naro, conhecido por seus posicionamentos misóginos e, inclusive, condenado por incitar o estupro. Não por acaso, as mulheres estão organizando um ato contra a candidatura dele em várias cidades do Brasil no próximo dia 29. A página do Facebook (Mulheres unidas contra Bolsonaro) que promoveu o evento já tinha mais de 2 milhões de integrantes antes de ser hackeada e excluída.

A falta de representatividade feminina tende a reforçar o lugar equivocado que os homens assumem quanto à soberania popular. Não é mera casualidade a Lei do Feminicídio, que tira o assassinato motivado por gênero do rol de homicídios passionais ou comuns, ter sido assinada somente em 2015 pela então presidenta Dilma Rousseff (PT).

O lugar da mulher

Para além da dificuldade em ocupar estes espaços, há ainda outro tipo de violência que elas sofrem quando, enfim, estão lá. Durante a própria gestão Dilma, o Brasil presenciou uma forma inédita até então de se mostrar descontentamento com o governo. Nunca antes na história havia se visto tantos insultos e ofensas carregados de misoginia e sexismo proferidos contra um presidente da República. E em meio à ironia de cartazes com os dizeres “Tchau, querida”, a saída de Dilma foi providenciada de modo a lembrá-la qual o “lugar da mulher” na sociedade – para eles, nunca foi na política.

Mas não precisamos voltar à ocasião do impeachment para falar sobre as diferentes formas que os homens encontram para silenciar uma colega parlamentar ou postulante. No debate entre os candidatos à Presidência pela Rede TV, a única candidata – Marina Silva (Rede) – precisou ouvir do postulante Jair Bolsonaro (PSL) que ela não sabia o que era ser mulher. Pouco antes disso, ainda no fervor das apresentações das pré-candidaturas, Manuela d’Ávila (PCdoB) foi interrompida mais de 60 vezes quando sabatinada no programa Roda Viva, cerca de 10 vezes mais que os outros candidatos – Ciro Gomes (PDT), Bolsonaro e Guilherme Boulos (PSOL) – em suas respectivas entrevistas.

É também uma forma de violência quando as mulheres que ocupam cargos de poder são coagidas, intimidadas, diminuídas. “E uma das formas de se fazer isso é através do estereótipo, de perpetuar o pensamento de que mulheres são mais emocionais, e homens são racionais, e que, portanto, eles governam melhor e tomariam melhores decisões por argumentos lógicos ao passo que as mulheres seriam mais emotivas e, utilizando um termo médico extremamente misógino, histéricas”, pontua Caldeira.

A construção do poder

O poder está tão simbolicamente associado ao masculino que, muitas vezes, as mulheres que ali incidem têm sua sexualidade contestada ou precisam se colocar de forma mais autoritária para obter respeito. “Características que são valorizadas nos homens, por exemplo, se ele é assertivo, ousado, firme, não têm o mesmo peso quando estão nas mulheres que ocupam esses mesmos lugares”, aponta Bárbara, explicando que elas são tomadas como histéricas, como loucas ou mesmo frágeis, quando não se posicionam dentro de uma lógica mais combativa em relação a essas masculinidades que as circundam.

Em Minas, a primeira mulher a se candidatar ao governo do Estado, Sandra Starling, em 1982, lembra de uma ocasião, durante comício, quando um homem gritou de dentro de um carro: “sapatão”. No entanto, a sua candidatura, e posterior atuação na política (foi deputada estadual e federal nas décadas de 80 e 90), foi mais marcada pela estranheza que causava em um meio predominantemente masculino do que por episódios como esse.

“Pelo contrário, todo mundo queria ver que loucura era aquela, de uma mulher candidata ao governo. Os meus comícios ficavam cheios, era um sucesso. A impressão que eu tinha era que as pessoas iam para ver se realmente eu falava, se eu pensava, se eu andava”, recorda Sandra. Quando subiu ao plenário pela primeira, ela também se deparou com a rápida organização e atenção que recebeu. “Eu causava estranheza. A primeira vez que assomei à tribuna, ficou todo mundo em silêncio, todo mundo correu e ficou sentadinho escutando, olhando para a minha cara, querendo ver se macaco falava”.

Mesmo antes da vida pública, quando ajudou a fundar o Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais, Sandra percebeu o papel delegado às mulheres na sociedade. “Na época, os sindicalistas queriam que as mulheres fossem secretárias no sindicato porque tinham a letra mais bonita, redondinha, e organizavam melhor os papéis”.

Guerra Civil oculta

Determinante na construção da Constituinte mineira, a advogada e professora Sandra Starling conseguiu que as parlamentares obtivessem o direito de poder usar calças no plenário da Assembleia Legislativa quando, até então, só era permitido que usassem saias. De lá para cá, no entanto, o mundo não mudou tanto assim.

“A violência cresceu mais ou, talvez, os casos de violência e feminicídio é que estejam mais visíveis, mais denunciados. O desemprego entre as mulheres é maior do que os homens, assim como a renda delas. Há uma espécie de guerra civil oculta contra as mulheres e isso nunca mudou”, comenta Sandra.

Para ela, até mesmo a decisão de os partidos destinarem 30% de seus recursos às campanhas de mulheres reforça isso. “O que tem acontecido é que eles estão pegando as mulheres e colocando como suplentes para utilizarem também este dinheiro nas candidaturas dos homens. Olha que macete!”.

Talvez por isso, Sandra acredite na mudança desses mecanismos por meio do fazer político nas ruas. “As mulheres têm que ir os botecos, para os encontros, conversar com as pessoas, por o dedo na cara dos outros, fazer discurso, falar alto. É assim que você se apresenta, e é isso que faz com que os outros te respeitem”, conclui.

Por Juliana Baeta

Autor
Somos um coletivo de mulheres jornalistas de Minas que já trabalharam em redações de grandes jornais de Belo Horizonte e em assessorias de imprensa. A "Campanha Libertas – Por mais mulheres na política" surgiu para fazer uma cobertura jornalística independente das eleições de 2018 com foco nas candidaturas femininas.

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