Um papo com Duvivier: o que o mito grego de Sísifo, o momento atual brasileiro, gifs e memes têm em comum? 

 Foto: Elisa Mendes

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Sobre a pergunta do título: mais do que você imagina.

As afinidades artísticas entre Gregório Duvivier e Vinícius Calderoni resultaram em um projeto inédito. Eles assinam juntos o texto da peça “Sísifo”, que chega a Belo Horizonte dias 1 e 2 de novembro, no Teatro Sesiminas, dentro da programação do Festival Teatro em Movimento. A peça é um monólogo protagonizado por Gregório e mistura assertivamente humor, drama, poesia e muitas reflexões. 

Tive o prazer de conversar com Gregório para compreender o contexto de criação da peça, bem como preparar o público para o que está por vir. Acabei descobrindo, também, um grande admirador do Teatro e do Cinema belo-horizontinos. 

Para quem não conhece,  Sísifo é um personagem da mitologia grega condenado a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. Toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível. 

Stella: Falar sobre hiperconexão, gifs e memes é falar sobre nós mesmos e uma cultura digital que parece incontrolável. O que da peça você absorveu para a vida do Gregório fora dos palcos? 

Gregório: A peça fala do mito grego de Sísifo a partir de uma perspectiva contemporânea. Encaramos Sísifo como um meme, um gif. A mim, o que ela mais ensina é que precisamos tirar algum prazer da repetição. Muitas coisas na vida são repetidas, o dia a dia, os acontecimentos, e a gente tem que encarar isso como algo que pode ser lúdico. É importante enxergar nesse processo cíclico um lugar onde cabe o prazer. 

S: Para você, como seria o GIF que resume o Brasil, neste momento?

G: Parece difícil descrever o Brasil num gif só, mas certamente seria uma espécie de videocassetada, dessas bem tragicômicas. Você não consegue rir direito, porque fica preocupado se a pessoa se machucou. 

S: Em uma alusão ao castigo de Sísifo com a pedra, o que você considera ser um grande castigo ao qual estamos submetidos e para o qual não existe uma solução aparente?

G: Acredito que não existe castigo que a gente não consiga cancelar, a não ser a morte. Sísifo fala muito disso, do adiamento da morte e como, apesar dessa condenação trágica da mortalidade que todos sofremos, conseguimos ver beleza nas coisas. Apesar de tudo, conseguimos fazer dessa nossa travessia absurda na Terra uma travessia cheia de encontros e alegrias. Acredito que essa seja nossa tarefa por aqui. 

S: Como e quando ocorreu o estalo que estabeleceu a relação entre este mito grego e o cenário brasileiro? 

O estalo se deu pelo Vinícius Calderoni, diretor e autor que assina o texto comigo. Um dia estávamos conversando sobre outro projeto nosso e ele fez essa relação de que Sísifo é um gif: um sujeito preso numa espécie de ciclo, assim como as imagens de gif são presas dentro de alguns segundos. 

Foto: Pedro Bonacina

A partir daí, fomos refletindo como o Brasil é também, de certa forma, um gif. Além do contexto político atual, vivemos um processo de robotização dos seres humanos, estamos cada vez mais submetidos a sermos automatizados, sisificados, executando tarefas repetitivas e absurdas. Então a ideia veio desse papo sobre a robotização e memetização do ser humano. Vimos em Sísifo uma imagem passível de ser interpretada de várias maneiras, assim como um meme pode tomar as mais diversas apresentações. 

S: Quais os trunfos e dificuldades de se apresentar em um monólogo?

G: A melhor parte é poder se apresentar onde e quando você quiser fazer, sem dificuldades de conciliar agendas e coisas do tipo. Tenho uma liberdade muito grande e prazerosa de viajar não só pelo Brasil, mas pelo mundo. 

O lado ruim é não ter os colegas de peça que, inevitavelmente, se tornam uma família. Em novembro vou com a peça para Portugal e, para compensar,  o Vinícius vai comigo. Giovana e Marieta — minha esposa e minha filha — também vão poder ir. E infelizmente elas não vão poder estar em BH. Giovana é mineira, tá no sangue. Se pudessem, iríamos todos sem dúvidas. 

S: Por fim, o que o público belo-horizontino pode esperar desse duplo encontro com você? 

Uma peça que fala do nosso momento atual, que diverte mas também comove e emociona. O Vinicius é um autor que mescla humor com reflexão, com eventualmente drama e poesia. Eu gosto muito dessa salada de gêneros e quero muito levar esse texto para BH. 

Sou muito fã do teatro mineiro no geral, e especialmente pelo belo-horizontino, Tenho um carinho imenso pelo Grupo Galpão, sou apaixonado por vários dos seus trabalhos, antigos e recentes, e a meu ver é o maior grupo do Brasil. 

O Espanca! também me emociona muito. Alguns trabalhos ecoam até hoje em mim, como Amores Surdos. A Grace Passô é, para mim, talvez a maior dramaturga contemporânea do Brasil, e o Espanca! faz as peças mais bonitas da nossa geração. 

E não apenas em relação ao teatro, também sou um grande fã do cinema mineiro. Estou muito feliz de estar aí, nessa terra de tantos talentos. Fiquei sabendo que no sábado tem um evento Contra a Censura, marcado na Praça de Santa Tereza. Vai ser demais.

Até já! 

Autor
A paixão pela palavra escrita, falada ou não-dita fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Sou uma das mentes criativas do time de Comunicação do GUAJA: aqui dou vida às ideias, nomes às coisas e cores às palavras. Quer contar uma história ou dar play em um novo projeto? Me chama que eu vou. Da produção cultural ao conteúdo digital, me redescubro nos encontros, e nos desencontros me reinvento. Sempre além.

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