Sissy Kelly: violência, ditadura militar, HIV, superações e sorrisos

 Foto: Lucas Ávila

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Como disse nas colunas anteriores, desde 2010 desenvolvo um trabalho de fotografia e de colaboração com o movimento de pessoas trans de Belo Horizonte e do Brasil. Resolvi deixar, a cada mês, um depoimento de alguém, narrado em primeira pessoa, sobre alguma vivência. Hoje vocês vão conhecer um pouco da história de Sissy Kelly, ativista e uma verdadeira sobrevivente. Aos 62 anos de idade, ela enfrentou a violência, a ditadura militar e a HIV.

“Eu nasci no leste de Minas, em uma cidade chamada Aimorés, quase na divisa com o Espírito Santo. Desde criança me reconheço como mulher, mas na época era difícil assumir e viver desta forma. Eu sentia necessidade de tomar hormônios, fazer mudanças no rosto e no corpo. Na minha juventude, silicone era só o industrial, todas as meninas usavam, mas não era algo barato ou feito em clínicas. A gente não tinha orientação médica, nem nada, geralmente eram as próprias travestis que faziam a aplicação. Se hoje já é muito difícil, imagine naquela época? Fiquei na cidade dos meus pais até os meus 17 anos, quando fui para Vitória (ES) me prostituir. Existia uma zona enorme lá em Carapebus, acredito que deveria ser uma das maiores do Brasil. Muitas meninas moravam na região para trabalhar, já que o fluxo de clientes era enorme por causa do porto. Quando cheguei, em uma reunião muito glamorosa entre as travestis e as donas das casas, me batizaram de Sônia Kelly. Com este nome percorri muitas cidades do Brasil e também da Europa, consegui fazer cirurgias e aplicar silicone em diversas regiões do meu corpo. O fluxo de viagens era alto. Quando a gente começa a se prostituir, é muito comum mudarmos de cidade temporariamente para conseguir novos clientes e dinheiro.

Na Itália, em 1986, estava em uma cidadezinha chamada Montecatini Terme. Eu era usuária de drogas injetáveis e tive uma overdose de heroína. Fui internada e, com os exames, me descobri uma pessoa soropositiva. No início, a descoberta do vírus veio junto com uma enorme revolta. Continuei vivendo na Europa quando, em Lisboa, no ano de 1989, vivendo em situação de rua, fui diagnosticada com Hepatite C. Tive que voltar ao Brasil e percebi que eu deveria mudar de vida, pensar mais na minha sobrevivência e na minha saúde. Não deixei de ser mulher, mas abandonei o nome Sônia e passei a assumir socialmente o nome carinhoso que minha mãe sempre me chamava quando eu era criança: Sissy.

Hoje sou uma sobrevivente, luto pelo direito das pessoas trans e por moradia. Estou curada da Hepatite e faço o tratamento com os antirretrovirais. Sou prova viva de que é possível viver e envelhecer sendo travesti e soropositiva há mais de trinta anos. O que não é possível é conviver com o preconceito, com a transfobia e com a falta de amor”.

Sissy Kelly fará 62 anos no dia 07 de abril. Ela gostaria que todas as leitoras e leitores desta coluna a prestigiassem e conhecessem um pouco mais de sua história. O evento será no dia 07/04, de 13h às 18h, no CRJ (Centro de Referência da Juventude), na Praça da Estação. Durante o evento, uma roda de conversa sobre “Acolhimento Institucional para pessoas LGBT+ em situação de rua” com Sissy Kelly, Anyky Lima, Gisella Lima, Olga Aquino. O evento contará com a participação da Academia TransLiterária.

Roupas e alimentos são bem-vindos. Bora?

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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