Sobre cidades, pessoas e coleções

 Foto: Sérgio Souto

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Duração da estadia em Paris: 30 dias. E foi exatamente no último deles que uma amizade de poucos minutos marcaria para sempre a minha relação com pessoas inesperadas.

Antes do encontro, preciso dizer que esta viagem teve um destino mais interno. Fui para fora buscando enxergar mais dentro. O apartamento alugado me distanciava da obrigação fraternal dos albergues. Os almoços nas ruas de diferentes arrondissements me serviam a solitude de bandeja. Não que eu me preparava todos os dias para afastar pessoas, eu apenas fazia convites diários ao silêncio. Era preciso deixar a cidade falar sozinha. Eu aprendia a escutar.

Pois bem, mesmo conseguindo me movimentar sem mapa, acabei escolhendo uma praça ao lado do apartamento para me despedir. Sentei-me num banco e vi a vida acontecer ao modo francês.

Foto: Sérgio Souto

Eis que uma senhorinha senta-se para conversar amenidades. Explico-lhe educadamente em francês que “eu não falo francês”. E, em uma questão de segundos, alguma tecla SAP mágica foi acionada.

Ela se interessou pela minha então incapacidade linguística. E eu pela empolgação do seu olhar. Luzes que se acenderam ainda mais quando respondi ao que me pareceu uma pergunta de onde eu vinha. “Brésil! Brésil!” — exclamava eufórica. A partir daí pude entender que aquela senhorinha amava o meu país e, vejam só, teve a sorte de amar um brasileiro que a levava para dançar.

O papo fluiu de uma maneira quase surreal. A possibilidade de eu ter entendido tudo errado existe. Quem se importa? O certo era a sua história de amor por um brasileiro que a fazia rodopiar pelos bailes da vida. Isso ainda enche meu coração de alegria. O passado, para ela, eram como os broches que enfeitavam seu casaco. Estavam ali, leves, fáceis de se carregar. Disponíveis para quem quisesse apreciar.

Eu trouxe da viagem um broche permanente de alguém temporário. Comecei ali uma coleção.

Ps.: gravei um vídeo para contar essa história e como o ‘souto no mundo’ surgiu. Pode também ser entendido como uma mensagem para o ano novo.

Autor
Acredito no poder transformador dos deslocamentos, independente da distância percorrida. Atualmente sem rótulos no ‘souto no mundo’ e coidealizador do Beagá COOL, uma rede de valorização de negócios COOL: criativos, originais, ousados e locais. Prefiro não ser definido pelo trabalho, mas se quiser entender minha trajetória profissional, o LinkedIn está aí pra isso. Ah! E um café é sempre melhor que um skype, porque a gente só muda quando a gente se encontra. Então, me chama porque aqui pretendo falar sobre experiências locais, de onde eu estiver.

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