Escreva-se — 1ª turma de 2019: Sobre o gerúndio que somos

 

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Que horas são?

E o poeta respondeu:

A eternidade. 

Marina Tsvetaeva

Mania é essa de engaiolar o tempo? Fantasiando de números o nosso não controle das horas, fingimos. Ainda luto para me aceitar gerúndio, não viver, estar vivendo. E é, no estar, o lugar que nos resta nesse mundo que acontece. 

O mar, o vento, a noite, a natureza concreta das cosias permanecem, elas, sim, vivem. Da nossa passagem flutuante, cabe a nós a insignificância da licença por estar e partilhar. 

Insolentes que somos, insistimos em marcar um território que não é nosso. Nada nos pertence e, talvez, seja esse o maior erro da língua. Não há meu, não há posse. 

E estamos sempre em algo. Bobagem minha usar o sempre, mas me permito cair ao vício da linguagem, já que é apenas nela, e só nela, a minha única forma de ser eterna. 

Guardo nas letras a minha concretude: o que me cabe no mundo, além do estar, é o dizer.

No Escreva-se, essa oficina-caminho que, a cada turma, me coloca em destinos e encontros inimagináveis, coloco o tempo como palco. Não é o papel, não é o lápis, ou o enunciado, é com os sentidos, as memórias e com o outro que a palavra floresce. Sorte a minha poder compartilhar e, principalmente, vivenciar textos com pessoas incríveis. Se estamos de passagem, ser contemporânea a esses novos autores é privilégio. Mostra pra mim como o tempo é generoso demais para quem sabe – além de dizer – olhar pra si mesmo como olha para outra pessoa.

Assim como Wallace Ischaber fez, quando pousou seu olhar numa fotografia e nos presenteou com esse conto-poema:

“Sexta-feira, 18:23. André espera o ônibus com um pouco de impaciência, a semana de trabalho foi pesada, e hoje, o senhor teria um compromisso importante.

Enquanto o coletivo não chega, ele pondera sobre o tempo, a idade e tudo o que passou.

No auge dos seus 52 anos, o corpo começa a doer e dar sinais de cansaço, causados pela rotina intermitente de trabalho desde os 15 anos.

Por sorte, os cabelos brancos começaram a dar sinal só agora, algo que André acha cômico pelo contraste com a orelha que fora furada por uma versão mais jovem e rebelde, talvez para impressionar uma certa alguém.

18:30, o ônibus chega. Ele adentra e se posiciona em pé, muito orgulhoso para um assento amarelo.

Seu telefone vibra, um sorriso jovial surge em seus lábios. ‘Chegamos no aeroporto, você vem nos buscar? ’ Ele responde: ‘claro, estou ansioso para conhece-los. ’

Uma lágrima rola pelas rugas de seu semblante. Havia muito tempo desde que o senhor tinha uma família.”

 Como a Helena Merlo fez, quando mergulhou em si e nos fez de reflexo no espelho dela.

“Quando me inscrevi para o curso de escrita pensei: que maravilha a vida adulta, que me permite fazer um curso só por prazer! Que bom que eu posso gastar horas do meu dia só fazendo o que tanto amo: escrever de forma livre e criativa. 

Me atrasei. Isso já diz um pouco dos tropeços desse momento da minha vida. Quando a Luana disse que seriam exercícios difíceis, me surpreendi. Buscar a leveza estava me fazendo fugir. Buscar o outro, outras histórias estava me fazendo ir para longe do que doí. Do que incomoda. Da angústia que é viver. 

Em muitos momentos eu tive que segurar as lágrimas. Talvez a vida adulta seja ser forte demais e tudo que eu preciso é reconectar com minha criança interior para entender e aceitar que vulnerabilidade é boa também. 

Olhar para o outro é bom, é necessário para sobreviver, para lutar as pequenas e as grandes batalhas do dia a dia. Mas, olhar para si é perturbador. É perceber que você é mais solidária com o outro do que com você mesma.”  

Como a Mariana Rodrigues, arquiteta das palavras, fez, quando viu na manchete de jornal a janela para uma nova história.

“Um metro e quarenta e sete centímetros. Fazia questão de verificar a cada dia se tinha crescido mais um pouco, já que alguns o chamavam de baixinho. Tamanho ele realmente não tinha, mas o garoto impressionava pela eloquência com que falava de assuntos tão complexos para nós adultos. Um dia o ouvi falando com uma senhora que o sol só brilha pra quem olha pra ele de coração aberto. E foi assim que eu conheci o pequeno Jonas enquanto esperava o trem e lhe pedi conselhos para lidar com o fim do meu relacionamento. Jonas me acolheu com o coração puro de uma criança e mediante o valor de R$6,50 que cobrava por cada conselho. “Crescer custa caro”, dizia ele.”

Descubro, com eles, como a eternidade não está na palavra cravada no papel e, sim, no sentimento impresso. Publicar-se sempre será encontro.

Até a próxima turma, até o próximo texto, até o próximo ponto final.

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

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