O que nunca me disseram sobre o ócio

 

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A vida acontece nas janelas.

Ouço os carros apressados em suas buzinas, os ônibus abarrotados de rotina, o vento sacudir as poucas folhas que encontra. A vizinha liga o chuveiro. Um interfone toca. O meu permanece mudo. A cidade parece gritar. Eu também.

Dentro do quarto, silêncio.

O sol ensaia uma dança sem jeito com as cortinas. Vejo, pelo teto, sombras se tornando memórias. Faço uma lista mental das coisas que não fiz. Os dias passados formam rascunhos e não me lembro exatamente o que deixei de fazer, mas me assusta pensar em quem deixei de ser. Enquanto minha janela fotografa a cidade em movimento, permaneço imóvel diante da minha culpa.

Habituada à agenda lotada, depois que renasci mãe, todos os dias se tornaram domingo. Não me refiro ao domingo ensolarado, com ares de churrasco e cerveja gelada (saudade!), mas, sim, ao dia preguiçoso, depois de uma semana cheia, com o corpo cansado e sem horário para almoçar. A culpa me maltrata como se não pudesse aproveitar nunca a bênção do ócio.

Desacostumada em contemplar o silêncio, me vejo, então, nua. A solidão me tira a roupa, mesmo com uma pequena tão dependente de mim ali, no outro lado do quarto.

Estar a sós exige uma coragem absurda. Não tenho. Encarar-se no silêncio do espelho é reconhecer cada ruga, cada culpa e cada aplauso resgatados da memória em que insisto, confesso, em não encarar.

Concluo por nós. Não lidamos bem com forças e fraquezas, os dois lados do rio que somos. Água corrente que desagua no breu. Ocupar-se demais é mergulhar no escuro de si. Tampar os próprios olhos com compromissos que, às vezes, dizem pouco de nós e para nós.

O ócio coloca a luz, feito farol, nessa navegação infinita. Viver tem muito disso, de ser barco em dias de chuva e sol. E navegar à noite, sabemos bem, é risco certo.

A vida acontece mesmo é no vazio da rotina.

Autor
As histórias me escorrem pelos dedos num plural que não caberia na primeira pessoa. Não poderia me limitar ao eu se me vejo nas memórias do outro, tão espelho, tão nós. Nas esquinas tortas dos outros, na contramão do óbvio, me vi escritora, tão obediente às palavras quando nós somos às histórias do que queremos ser. Da redatora graduada em Publicidade (Unibh) e em Letras (UFMG), tão habituada em transformar marcas em pessoas (Petrobras, Direcional Engenharia, Grupo Seculus, Itambé e, hoje, MaxMilhas), sou recém-nascida das palavras pela publicação do meu primeiro livro: Controverso – Histórias que Beliscam.

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