Anyky Lima, sobrevivente

 Foto: Lucas Ávila (Ensaio para a NLucon)

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Desde 2010 eu desenvolvo um trabalho de fotografia e ativismo com pessoas trans de Belo Horizonte e do Brasil, como contei no meu primeiro artigo no guaja.cc. Começou tímido e hoje ocupa parte significativa da minha vida. Ao longo desse tempo, muitas pessoas viraram parte da família, amigos e amigas íntimas, confidentes. Quando fui convidado pelo GUAJA a ser colunista sobre o tema LGBT, pensei muito sobre o espaço que estava me adentrando, sobre o protagonismo, lugar de fala. Onde estão as pessoas trans, os gays e lésbicas periféricas, vítimas de tantos problemas e violências, nesses espaços? Como eu, do alto dos meus privilégios, poderia falar de forma confortável sobre essas vivências? Foi aí que resolvi deixar, a cada mês, um depoimento de alguém, narrado em primeira pessoa, sobre alguma situação que vivenciou. Que estas vozes, muitas vezes silenciadas, cheguem bem alto aos mais diversos espaços. E que estas pessoas façam parte dele, através de oportunidades, emprego, acesso. Apresento a vocês Anyky Lima, uma sobrevivente.

Anyky Lima, em ensaio de Lucas Ávila para o site NLucon.

“Nunca gostei muito de festas de fim de ano. Dezembro e janeiro pra mim são muito melancólicos, mesmo hoje, após tantos anos. Na época, passava em frente à casa de minha família e via movimentações, luzes, festa, sem poder entrar. Ficava espiando de longe. Passei muitos natais e réveillons com dois amigos, sentávamos no meio fio ou ficávamos vagando pelas ruas do centro do Rio de Janeiro.

Meu nome é Anyky Lima, nasci em 1955, em Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Desde muito nova percebi que eu não era um menino, como minha família inteira pensava. Quando comecei a me portar como menina, foi um choque em casa, ninguém me entendia. Na época não tinha muita informação, e mesmo hoje, com mais facilidade de entendimento, muitas travestis e mulheres trans passam pelo que eu passei. Fui expulsa de casa aos 12 anos de idade, fiquei uns três dias vagando pelas ruas do Flamengo, da Central do Brasil, sem ter pra onde ir. Me lembrei de uma travesti chamada Sandra Dragão, ela morava com um pai de santo em Padre Miguel, perto da casa dos meus pais. Ela estava em processo de iniciação no Candomblé, o que a gente chama de “obrigação de santo”. Esperei alguns dias por ela e, enquanto isso, ficava à noite no centro da cidade, onde as meninas se prostituíam. Eu ainda não tinha começado a minha transição, ficava encostada nos cantos e quando tinha oportunidade entrava em algum carro. Tinha as pernas muito grossas e o cabelo um pouco maior, isso chamava atenção dos homens. Foi aí que comecei a me prostituir. Passei fome, frio, muitos problemas. Trabalhava para ter o que comer.

Sandra Dragão me levou para Vitória, no Espírito Santo, para morar em uma zona muito grande que havia lá. Fomos de carona, demoramos uns três dias, já que as enormes cicatrizes que Sandra tinha no corpo — ora de agressões, ora de cortes que ela mesma fazia para afastar abordagem policial — distanciava os caminhoneiros. Ninguém queria parar pra gente. Chegando na zona, fiquei encantada, mas também foi difícil. As meninas me deram roupas, aprendi sobre hormônios, sobre a vida, sobre sexo e a me virar. Aluguei um quartinho, comecei minha transição e por lá fiquei até meus 18 anos de idade. Nesse tempo arrumei um namorado, mas ele era muito ciumento, a gente se atracava, se batia, a relação era muito abusiva.

Voltei para o Rio e conheci Ivone, uma costureira. Trabalhávamos juntas e, enquanto costurava, completava a renda fazendo programas. Fui passando de casa em casa, conheci muita gente, aprendi a ser cabeleireira, a aplicar silicone nas meninas que estavam começando, fui fazendo minha vida até ir para Diamantina trabalhar no salão de uma amiga. De lá, vim parar em Belo Horizonte, onde estou até hoje. Passei a dividir casa com outras travestis, hoje alugo quartos para várias delas que querem trabalhar e se prostituir na cidade. Junto a isso tive contato com várias pessoas de movimentos sociais. Hoje sou uma ativista da causa trans, pelos direitos das pessoas serem e viverem. Sou uma sobrevivente. Muitas amigas, muitas mesmo, morreram novas, vítimas da violência. Somos o país que mais mata pessoas trans. Eu presenciei inúmeras mortes, você não faz ideia. Todas de forma covarde, numa crueldade sem tamanho. Sonho com o dia em que as pessoas trans vivam tanto quanto eu. Eu sobrevivi e nem sei como. E elas? Elas precisam é de sair dos guetos, precisam de trabalho, de alguém que ofereça uma mão chamada oportunidade.”

No país onde a expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos de idade, Anyky Lima chegou aos 62. Nem ela sabe como sobreviveu. Pouquíssimas pessoas trans chegam à terceira idade. A maior parte passa a vida condicionada à prostituição e tráfico de drogas. Nem todas querem este futuro. #contrateumapessoatrans

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

1 thought on “Anyky Lima, sobrevivente

  1. Lucas, quero parabenizar você por essa iniciativa. Apesar dos avanços da última década, a discussão sobre a igualdade entre seres humanos (afinal, é o que todos somos) ainda tem muito que evoluir.

    E o tema emprego, na minha humilde opinião, é um dos mais relevantes, pois é por meio dele que a pessoa consegue ter seu lugar na Sociedade e viver de forma digna.

    Enquanto a sociedade continuar impondo as pessoas trans trabalhar com prostituição é tráfico de drogas, como você bem lembrou, não teremos como evoluir na discussão sobre igualdade.

    Neste contexto, iniciativas como a sua são muito importantes, para dar voz e espaço aqueles que sempre foram marginalizados, e que nunca tiveram o direito de existir de forma digna.

    Parabéns.

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