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 Foto: Isis Medeiros

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O que faria as mulheres — e os homens — votarem em mulheres?

Imaginem uma palestra sobre como é ser mulher, os efeitos da menstruação ou as dores do parto. Quem está no palco é um homem, médico, falando sobre os sintomas e desconfortos que as mulheres têm nessas situações e o que elas podem fazer para amenizar. A plateia é formada por grande parte do gênero feminino. Algumas ali menstruadas vão ouvindo um homem falar, enquanto sentem uma pontada no “pé” da barriga – aquela cólica que só quem é mulher vai compreender. Parece estranho?

Eu assisti a essa palestra, era um lançamento para jornalistas de um novo anticoncepcional, no fim do ano passado. Eu estava no primeiro dia da minha menstruação, cheia de dor e sangue, ouvindo aquele homem falar no palco: “as mulheres sofrem com a menstruação… a mulher não foi feita para menstruar”. E só conseguia pensar: quem ele pensa que é para falar disso, ele já sofreu?; não é possível que não tinha uma ginecologista mulher competente para estar nessa palestra! Segundo a edição de 2018 da Demografia Médica no Brasil, 56% dos médicos ginecologistas são mulheres.

Sobre um tema em que a mulher teria mais afinidade para falar é fácil perceber que naquele palco deveria ter uma mulher. Mas são muitos os palanques tomados por homens falando para e em nome delas, em que elas são pelo menos metade da plateia. É assim no Congresso Nacional, onde nove em cada dez políticos são homens, mas 52% da população brasileira são mulheres. Isso tem que soar estranho igual à cena do homem falando sobre menstruação. Que a gente não entende só de período fértil, bebês e casas, já está bem claro, mas precisamos ocupar as cadeiras e pegar os microfones que falam por nós. No sistema de hoje, as mulheres ainda não têm direito garantido ao lugar de fala, de ação, de decisão.

Eu não estou nesse lugar de escrita tratando só sobre fazer justiça com as mulheres e seus alto-falantes, calculando as porcentagens e a representatividade, quero falar de afinidade. Se fosse uma mulher falando de menstruação, eu confesso que sentiria bem mais empatia naquele momento. Talvez isso explique a maioria dos votos brancos e nulos vir de mulher, conforme pesquisa recente do Ibope. Elas não se sentem parte do sistema político e, de fato, não há mulheres lá nas bancadas, de forma expressiva, tomando decisões. E votar consciente exige trabalho, tem que conhecer os candidatos, o histórico, as propostas. O que faria as mulheres votarem em mulheres? Ou mesmo os homens votarem em mulheres?

Não há uma única resposta, mas certo é que as candidaturas femininas, das mulheres que ousaram concorrer a uma vaga na política – o que ainda é um gesto de ousadia – precisam ser conhecidas, divulgadas, com seriedade, com protagonismo. Perguntar para a candidata Manuela D’Ávila por que ela muda o corte e a cor do cabelo várias vezes ou com quem ela deixa a filha – como a própria diz ter que responder – não é tratá-la com respeito de alguém presidenciável.

Eleições, mulheres e jornalismo

O que eu aprendi a fazer no jornalismo, profissão que exerço há oito anos, é levar às pessoas o que é de interesse público, aquilo que precisa ser dito e visto. E o que incorporei à minha rotina nos últimos quatro anos é o olhar feminista em todas as pautas. Seja na hora de escolher uma fonte especialista para abordar um assunto qualquer, seja na forma como percebo uma personagem mulher.

É possível enxergar as consequências do machismo em tudo. Ele não está só nas pautas de violência doméstica e feminicídio que já fiz. Mas na reportagem sobre mulheres grávidas que são obrigadas a gestar nove meses um feto que tem prognóstico de morte fora da barriga; na matéria da paciente com câncer em estágio terminal que batalhou para criar quatro filhas e a despedida significava desampará-las ainda jovens; na história de vida de uma gari do Parque Municipal de Belo Horizonte com 100 piercings no rosto que acreditava que o pai, desconhecido, era um índio; na discriminação às prostitutas da Guaicurus, mas não porque elas cobram por sexo, mas porque a sociedade patriarcal alimenta a prostituição e diz que é “o pior lugar do mundo”.

Para que mais pessoas possam ver o machismo e o quão prejudicial é um sistema político majoritariamente masculino, nasceu a Campanha Libertas. Por mais mulheres livres para se candidatar, falar, ocupar espaços de poder, decidir e votar. Só foi possível criar esse projeto porque somos um grupo de mulheres livres. O jornalismo é o nosso guia, na busca pela verdade e pela imparcialidade, e o feminismo é o nosso norte, na demanda por igualdade de direitos e oportunidades. Vamos e precisamos falar das candidatas mulheres, mas de todas elas: as trans, as cis, as brancas, as índias, as negras, as homossexuais, as de direita e as de esquerda.

Começamos em uma sortuda sexta-feira 13, com o lançamento de um financiamento coletivo, que foi abraçado por muita gente. Na primeira quinzena no ar, atingimos 50% da meta e 100 apoiadores, conquistamos mil seguidores e recebemos milhares de mensagens que diziam: “que massa”; “que bom que vocês estão fazendo isso”; “era isso que precisava acontecer”; “contem comigo”. Isso é abraço, é afinidade, é fazer parte.

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Autor
Repórter freelancer, focada em jornalismo de profundidade. Gosto de me debruçar, principalmente, em pautas de direitos humanos e feminismo, mas me atraem também temas de saúde, educação e meio ambiente. Tenho sugerido e produzido minhas reportagens, publicando em mídias independentes e nacionais. Sou metade pernambucana e metade mineira, divido meu tempo e atuo como jornalista nos dois Estados agora. Em Recife, nasci e vivi até os 17 anos. Em Belo Horizonte, cresci e vivi meus últimos 15 anos, sete deles como repórter no jornal O Tempo. Nestas eleições, sou uma das idealizadoras da Campanha Libertas - Por mais mulheres na política em Minas.

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