O dialeto nocivo da sucesso-normatividade. Oi?

 

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Um título descabido que tenta fingir que está num artigo científico, mas que não vai além das leituras gentis de gentes leitoras que tropeçaram neste link. O fato é que a sucesso-normatividade é uma praga, e faço questão de lhe apresentá-la.

A sucesso-normatividade, na minha cabeça, é a mentalidade do sucesso, do mérito, da evolução, da conquista, do reconhecimento profissional, isso tudo (que não é necessariamente ruim), mas de forma mais profunda; digamos que quase institucionalizada. Neste paradigma do sucesso — que os anti-gravata tentam desconstruir e às vezes conseguem — , todos entendem os rumos do sucesso: as promoções, as responsabilidades de liderança, a conquista de novos mercados, a ampliação das sedes, a abertura de capital etc. Enfim, existe uma cultura de valores, expectativas, referências mais ou menos desenhadas e compartilhadas. No imaginário da classe média habitante das redes sociais, a gente compreende a língua do sucesso.

E falando em língua, aí que entra o dialeto nocivo dessa normatividade. No âmbito do sucesso, existe um jeito certo de falar. Existem as expressões certas, os clichês certos e até as desconstruções certas. Você vai exclamar que “Fulano está voando!”, vai dizer que o importante é não desistir, vai repetir que, apesar de muitos dizerem o contrário, a vida no empreendedorismo não tem glamour nenhum, e ainda vai completar dizendo que “estamos apenas começando”, mesmo que já estejam, sei lá, no meio, em vez do começo.

Mas ok, sem neura, isso não é um problema, claro. É inclusive uma vibe bem positiva, otimista, que tem movimentado seus bilhões de dinheiros e milhões de pessoas. O tenso é que nesse dialeto sucesso-normativo a gente mantém as palavras, muitas vezes, em um nível artificial, mecânico, copioso, redundante. A troca de elogios é protocolar, os adjetivos são tabelados, os resultados são alimentados com um tapa nas costas e no fim das contas a gente muda até a linguagem pra comentar um post no LinkedIn. O corporativismo criou asas, incorporou propulsores, e hoje o sucesso é um exército de Buzz Lightyears almejando o infinito e além — e falando incessantemente sobre isso.

E a pulga atrás da orelha fica no seguinte: e o lado afetuoso, carinhoso, gentil, amoroso, inesperado da coisa, cabe nesse mesmo mundo? “Eu não saberia resolver isso sem você, muito obrigado, de coração” — há espaço pra ser vulnerável ou só pra falar sobre a vulnerabilidade do TED da Brené Brown?Parece bobo, mas exige esforço imaginar a afetividade dando o tom nas relações — mesmo que próximas, firmes, íntimas — que operam sob os olhares da sucesso-normatividade. Essa afetividade existe, sim, mas o sotaque do sucesso é sempre mais estrondoso. E será que há de ser assim sempre?

Por fim, minha conclusão é apenas a responsabilidade de não deixarmos que esse dialeto tome conta das nossas vidas por completo. Ele funciona, eu sei, mas não é suficiente pra fazer valer a pena. Nem para acolher, nem para surpreender, nem para marcar alguém. Sempre dá pra perguntar além do projeto ou elogiar uma habilidade que não está no job description.

Acredite: afeto cabe até em planilha.

Autor
Adoro meu nome, mas pode me chamar só de Cris, viu? Acho que já cresci, mas ainda quero ser astronauta - e escritor e cientista e menos megalomaníaco. Tento abraçar o mundo todos os dias e, quando não cabe, às vezes restam ao menos algumas palavras. Sou apaixonado por falar verdade e por acreditar que posso resolver os problemas do mundo. Quero tornar o impossível parte da rotina do ser humano - será que é possível? Já estudei Comunicação na UFMG, hoje sou designer no Méliuz, e amanhã eu provavelmente não faço a menor ideia.

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