“Você não é suficiente”

 Ilustração: Thereza Nardellis

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Um ano atrás, eu escutei de um namorado algo que até hoje me assombra e me leva pra lugares não tão salubres da memória: pro meu espanto, ele me deu a notícia de que eu já não era mais “suficiente” — e, segundo ele, eu já não era “suficiente” há algum tempo.

Uma notícia até tragicamente engraçada, se for levar em consideração a breve e fracassada “carreira” em suficiência que eu tenho perseguido durante vida. Tentei e falhei gloriosamente todas as pessoas a quem, um dia, pensei ou quis ou supus ser suficiente — a lista é longa e obviamente inclui familiares, amigos, namorados, talvez você mesmo que esteja me lendo, e, menção honrosa, meu pai, crescentemente desgostado com o filho não tão heterossexual e mentalmente são que gostaria de ter.

Talvez o que eu tenha perseguido todos esses anos foi, de fato, uma carreira secretamente muito bem sucedida em ser insuficiente.

A constatação de insuficiência vinda daquele namorado, por mais triste que pareça e, de fato, seja, foi por sua vez uma das coisas mais interessantes que me aconteceram. “Você também não!”, talvez fosse a resposta imediata que eu gostaria de ter. Ele não foi, nunca foi, definitivamente jamais seria alguém “suficiente” para mim.

E há um tempo, eu havia prazerosamente aceito, bastante aliviado, que ele não seria suficiente pra mim. na verdade, foi exatamente o abandono da promessa de suficiência que me fez retornar para aquela pessoa ao meu lado, me fazendo perguntar: “o que mais tem aqui?”.

A resposta pra essa pergunta é, sempre, tão interessante, ao mesmo tempo que decepcionante. E é uma resposta sempre inacabada: como, afinal, eu poderia encerrar alguém na constatação de que ela é somente “isso” ou “aquilo”? Pessoas são pequenas máquinas imprevisíveis de peculiaridades e perversões, hipocrisias e inteligências, idas e recuos sobre a forma como elas mesmas se enxergam.

“O que mais tem aqui?” é, consequentemente, uma pergunta que fazemos pra nós mesmos em relação a nossa vida. Pode parecer uma pergunta triste e trágica, se você acreditar que a única resposta possível e satisfatória seria um “isso”. Pode ser, por sua vez, uma pergunta expressivamente cômica se você levar em consideração que a graça é tentar encontrar uma resposta.

Talvez a única resposta cabível seja: “deixa eu ver o que mais tem aqui”.

Quando meu ex me notificou sobre eu já não estar sendo “suficiente”, talvez essa tenha sido a constatação mais gentil que alguém com uma expectativa dessa poderia fazer. “Ah, obrigado, definitivamente não sou”, eu poderia ter respondido, agradecido e agraciado.

Aliás, só poderia nomear como uma gentileza o livramento desse trabalho insuportável. “Você não é suficiente!”, posto dessa forma, parece muito mais romântico do que o “eu te amo”. Afinal, o que mais significaria “eu te amo!” se não a constatação estritamente pessoal de que “algo falta em mim, e estou afetuosamente tentando reconstituir essa falta com você”?

E diga-se de passagem: o problema não é reconstituir o que falta em mim com os outros, mas é imaginar que eles “resolvam” e “encerrem” a minha falta. Afinal, o que mais seria “amar o outro” se não aprender a construir uma outra disposição para a ausência, ao lado dele?

O que se deu desse um ano para cá foi minha convivência com a pergunta “o que mais tem aqui?”, o que já me gerou inúmeros momentos de ansiedade e frustração, e alguns de riso e prazer.

Não se trata de uma constatação estritamente alegre e jocosa: reconhecer a não existência de uma ordem das coisas é, sempre, reconhecer a imprevisibilidade construtiva e destrutiva do mundo ao nosso redor. O prazer só pode ser buscado quando reconhecemos o risco da sua iminente frustração ou perda — um tarefa obviamente difícil de ser tomada, mas irrecusável.

O fato de que nos frustraremos, ou que as coisas vão “perder a graça” não deveria, inclusive, nos parar de procurar a graça nas coisas.

A pergunta “o que mais tem aqui?”, ou melhor colocando, a tarefa de “ver o que mais tem aqui” pode não ser a mais “feliz e satisfatória” das tarefas, mas é a mais interessante. É a própria condição de nossas vidas: estamos vivos, a vida não nos é dada por uma escolha nossa; mesmo assim, viver é aceitar essa vida que nos foi entregue sem nosso consentimento e, inevitavelmente, ver “o que mais tem aqui” para experienciarmos.

Se “viver bem” diz respeito a algo, afinal, definitivamente não é sobre viver de forma suficiente para os outros, nem esperar que os outros sejam suficientes para nós, mas aceitar radicalmente e rir corajosamente da condição insuficiente da própria vida.

Sigamos nossas novas carreiras de insuficiência.

Autor
Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Jornalista desertor, hoje pesquisa ética e crítica na mídia e na vida cotidiana. Tio do Faísca e da Sushi.

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