Nasce um poeta

 Foto: Thais Guimarães

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Um carro capota na lua, livro que marca a estreia de Tadeu Sarmento na poesia, tem quase tantas histórias em torno de sua criação e publicação quanto narrativas poéticas em suas páginas. Chega a parecer colecionar momentos de nascimento que culminam com o lançamento da obra pela editora Tercetto no próximo sábado (15/12), a partir das 10h30, no GUAJA.

O primeiro nascimento do livro ocorre, naturalmente, na escrita. Vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura pelo romance Associação Robert Walser para sósias anônimos (Cepe) e do Prêmio Barco a Vapor pelo infanto-juvenil O cometa é um sol que não deu certo (SM Edições), Tadeu tem sua escrita calcada na rotina, que ele usa como espécie de trincheira. “O mundo é muito caótico. As coisas não dependem de você. Elas explodem aqui e ali. O mundo é confuso, é difícil de entender. As coisas não estão à sua mão, elas acontecem à sua revelia. A literatura é uma forma de organizar esse caos”, explica o autor, que pratica a escrita diariamente.

O segundo nascimento do livro ocorreu pelas mãos de Adriane Garcia, que fez um mergulho no que havia se tornado a moradia permanente dos poemas de Tadeu, os arquivos. “A Adriane fuçou e gostou. Ela que pincelou esses arquivos e compôs o livro. Ela criou a estrutura. Achou um eixo central que percorre todos os poemas. O título, que sai de um verso. Ela que armou o livro todo”, conta o autor, que é casado com a poeta.

O terceiro ocorreu quando a obra foi anunciada vencedora do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura de 2016 na categoria poesia, sendo reconhecida no gênero antes mesmo da sua primeira publicação. “Ganhou para a minha surpresa. Para ser bem honesto, gosto de escrever poesia, mas escrevo menos que meu trabalho de prosa. Foi com o prêmio que eu vi que meus poemas tinham qualidade”, confessa Tadeu.

O quarto nascimento de Um carro capota na lua demorou um pouco para chegar. Ocorre no aniversário de dois anos do prêmio. Mas é por um bom motivo. O primeiro livro de poesia do escritor e crítico divide sua estreia com a Tercetto, casa editorial que a poeta Thais Guimarães lança em parceria com a designer gráfica Glória Campos. “Demorou para lançar porque ele esperou a gente”, conta Thais. “Eu disse para ele que gostaria de editar o livro, mas, na época, ainda estava formatando a ideia da editora. Ele disse: ‘Vou te esperar. Quero ser o primeiro’.”

O resultado dessa confluência de eventos é uma obra de micronarrativas poéticas cuja temática tende ao trágico, que aparece em referências ao câncer, à sobrevivência e a Auschwitz, mas é salpicada por um humor excêntrico, que estranha o mundo e enxerga o que não é óbvio. É o nascimento de um poeta, que compartilha sua peculiar visão do mundo.

Literatura em primeira mão

(Do livro Um carro capota na lua, publicado pela Tercetto)

Pappe satan
Em 1900, Hervé Villechaize,
Um jovem rabino que tinha um ombro
Maior que o outro, salva um garotinho
Do afogamento usando a Torá como boia.
O menino chamava-se Adolf Hitler.
Até hoje Villechaize se vinga de Deus,
Desenhando pirocas na bunda do ditador
Em todas as fotos em que ele aparece
Nos livros de História.

Escute na voz do autor!

Autor
Publicação belo-horizontina dedicada à produção literária autoral mineira e brasileira. Em parceria com o GUAJA e com a curadoria de Flávia Denise e Val Prochnow, a revista publica neste espaço, mensalmente, contos, poemas e trechos de textos de autores locais.

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