Tarde piaste: encontros pós-desconstruções

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Depois daquele encontro, há dias escorre um silêncio intocável, com cheiro de dúvida quanto ao bem ou mal do atrevimento. Parece-me que padecemos de um silêncio tácito, e quebrá-lo seria sacrilégio, que as partes não incorrem por medo de que se dilua o encantamento. O primeiro a romper sentenciaria o passo seguinte para o qual não sabemos se há pernas.

O legado desse tipo de encontro é pensar, pensar e de novo pensar, e quando possível emergir. Não há muito o que se possa fazer. O passar das horas e dos dias diz mais que essas catarses, diz que sonho é para os crédulos, e que o alarme já soou há anos. Assim, repousamos, agora, passada a ousadia, do excesso de memória exumada e de impressões difusas, para tentar acomodar o que não tem nome.

Já era tarde da noite, mas não tão tarde que me furtasse o prazer que acenava, revisitado. Era possível, ainda que tarde, um encontro impensável depois de contornados os anos e delineadas as desconstruções. Estive presente como em estado de levitação, olhando-me em transe por cima da cena. Meu corpo movia desarticulado e falava em profusão, conectada à lógica alguma. Fluía emoções tão visíveis quanto insuportáveis. Se me coubesse o dom de ser leve, sem parecer ao outro que manejo desconcertada a construção de um personagem esvaziado de tensão, provavelmente estaria a salvo.

Tarde piaste, talvez, amor do passado, que no presente não o apreendo com o mesmo frescor. Ou foi-se o tempo ou fomos nós que não mais passamos por dois atores nos papéis que vestíamos.

Mas há algo, do lugar de uma contaminação, que parece ter-nos entranhado. Em vão, para além do desejo, olhares se cruzaram perto e de soslaio, toque e cheiro revelaram códigos já decifrados, lábios selaram o gosto de um fantasma familiar, e rentes à pele calafrios cortaram como navalha, revelando a carne crua que não apodrece fácil, ainda que tarde piaste teu chamado.

Autor
Psicóloga, com formação em psicanálise, e jornalista. Escrevinhadora pelo interesse absoluto nas palavras como tentativa de pura ressignificação. A letra não é literária, sabe-se tão somente forte e intuitiva e propulsora ao pensar livre. O desejo é o da conexão com leitores dispostos aos textos abertos. Pretende-se ascender à dúvida, ampliar entendimentos, promover análises, libertar o ponto o final de sua predestinação.

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