Tentativas Poéticas de Eliminar o Trágico da Vida

 Foto: Lucas Ávila

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Certa manhã eu acordei e, horas depois, decidi pegar caronas sem destino, sozinho fiquei por 10 meses em estradas que me levaram ao encontro de mim.

Parte 1

Era janeiro de 2015, ontem eu tinha ido à festa de Réveillon. Acordei com uma sensação de que a virada do ano pedia pra que eu também virasse a minha vida e as minhas ideias de ponta cabeça e, dessa vez, eu queria ter também os pés descalços. O que fazer o que fazer o que fazer.

Fui ao centro de Belo Horizonte, num daqueles shoppings populares… Dos 300 reais que eu tinha na carteira, investi 100 em um mochilão e uma lanterna. Barraca e colchonete eram itens que eu já havia adquirido antes, tinha também materiais pra produzir artesanato, canivete, garrafinha de água, roupas, cadernos, tintas e canetas. Era suficiente.

Nem um dia a mais eu suportei esperar, ajeitei tudo na mochila e parti rumo ao que me esperava.
Nos primeiros dias, quanto mais eu ia, mais eu pensava. Que loucura, cara. 200 reais, sem passagem de ida nem de volta, sem ao menos destino. Que loucura, você deve ser louco, você só pode ser mais um desses loucos. Isso me animava ainda mais em seguir, explorar, descobrir, conhecer lugares, pessoas, situações e o principal, eu realmente naquela viagem estava interessado em conhecer a mim mesmo. Qual seria o limite?

Parte 2

USP, Primeiro Encontro Nacional de Homens Trans.
Eu realmente nunca tinha imaginado viver uma situação em que estivessem tantas pessoas transmasculinas ocupando o mesmo espaço. Fiquei deslumbrado por ter contato com tantos pares, de tantos estados e lugares, tantas histórias e trajetórias ali em que eu me reconhecia em vários e em vários e vários. Resolvi ficar, ocupar também. Explodia de entusiasmo e felicidade!

Foram dias de intensas trocas, houve plenárias em que pensávamos estratégias para garantia de nossos direitos, o que fazer o que fazer. Foi então que uma coisa me causou de novo algo inédito… Senti nojo, muito nojo e tanta raiva que por instantes até esqueci que aquele era eu.

Presenciei um relato de estupro, acabara de acontecer.
O que fazer o que fazer.
Eu queria mesmo era matar aquele estuprador e depois eu mesmo morrer.
Lembrei de vários momentos do passado em que me senti preso, impotente, inútil, e ali estava de novo, preso e impotente e inútil.
Agora era eu um completo lixo, sensação de que estava podre.
Estrada que segue vida que caminha.

Parte 3
Bahiaaaaa! Melhor carona que essa? Oxente, como?!
Tem muita história aqui. Aqui eu me afirmo poeta. Aqui eu confesso que a poesia é a cura dos meus dias. Poesia única companhia quando o desejo é estar em completa solidão.

Era uma vez um poeta que começa a receber cartas quando decide endereçar pelo Brasil. O poeta sou eu, o poeta eram todas as pessoas que passavam por aqui. Da poesia que caminha comigo durante toda vida, sendo ela o confessionário dos dias frios e também dos dias quentes, veio o combustível, a epifania que faltava pra que eu pudesse ser visceral e catártico, bem como é a poesia e, logo, a vida.

Ok ok, mas por que estou aqui falando de sabe-se lá o quê? É que eu sentei pra escrever e me deu vontade de contar, sabe? Fazer do confessionário um exercício público, pra que, quem sabe, outras pessoas entendam que aqui, mesmo com a criação de personagens, fábulas ou histórias de ninar, aqui eu posso de verdade ser eu e eu estou sendo eu, sendo eu, sendo eu e sendo eu… Quem é você? Você que está aí do outro lado sabe-se lá por que com interesse em prestar atenção nessas minhas palavras. Por que você está lendo isso? Não era de se esperar que fosse lixo? Você lê por que eu sou você? Você sou eu? Somos espelho ou não um do outro?

Ouvi dizer que existe uma estrada de desaparecidos… Fui procurar informações a respeito e percebi que eu me incluía no trajeto. Juntei os cacos pensando em alguma música que desse compasso e foi então que me calei ao som de nenhuma. Persisti no risco do silêncio dessa disritmia que insistia e ai eu via que tudo era pra mim dissonante demais.

Permaneço em poesia e em SINCRONICIDADE.

Em junho, Terra de Diversidade recebe Dora Bellavinha:

Uma leitura objetiva de Giulio Carlo Argan

A justa consciência de Mondrian quer eliminar o trágico da vida – sensações que se tornam pensamento, imediatamente, e o homem é então capaz de resolver suas contradições e os atos da sociedade são racionais, morais e estéticos. Isso faz tempo, não muito, da história da arte mais recente antes da nossa, ou da nossa mesmo, que ainda somos modernos e não contemporâneos, ou ainda, de antes, que ainda somos românticos, trágicos, sofredores, Van Goghs, expressionistas.

Ainda somos, um amor que flecha a morte com o sadismo Abramovich, ainda somos Sade. E com o que queremos romper? Já não podemos temer o sublime clássico, NADA A TEMER, a natureza está controlada, de quando em vez um tsunami, um derrame no Nepal, katrinas, vesúvios, mas nada a temer. Ainda somos revolucionários? Já fomos um dia? Tradições de ruptura que se encadeiam em delimitações racionais, sensoriais, metafísicas, simbólicas, mitológicas, espiritualistas, Kandinskys, Picassos, Cezannes, Klees: ser histórico, ser anti-histórico, pitoresco, árcade, lógico, ser NEO – NEOTUDO, tudo retomar só que outro, tudo retomar só que mesmo, neoclássico, neorromântico, neoimpressionista, barroco e rococó, gostar pelo gosto desengajado, ser art nouveau de dobras mirabolantes e dissimulantes da história das mortes cáusticas, das guilhotinas e forcas, dos fornos de gente, das câmeras de gás, do extermínio periférico, da direita alemã (que ainda existe, que ainda cresce), da direita brasileira (que vence quase sempre, nos disfarces de um jeitinho tropical, driblando a lei, pedaladas fiscais, morais, coronelistas, golpistas): importa a família tradicional mineira e seu feijão tropeiro caviar, importa a tradição literária, a arte grega, Atenas, a filosofia da arte, Kant, a filosofia da ideia, Platão, o REAL.

Deste gosto, deste não gosto, deste compro um cartaz ready made, no meu quarto há um Klimt, um Miró, um Malevich, mas há ainda a ciência engenhosa de uma cadeira de balanço, da rede de dormir, da rede de surfar, há o touch. Posso negar os mares revoltos de Turner por que a vida é lógica, mas como negar as enchentes de dezembro, Mondrian? Te gosto pra decoração, linhas que organizam a vida, a percepção, tudo se ajeita com um bom urbanismo, veja a Holanda e seus 41000 km2, veja a Alemanha e seus refugiados empilhados em esquinas invernais, estábulos, porões: não se pode viver na África – e onde se pode viver? Quantos problemas foram erguidos pelas vanguardas que admiramos e visitamos nos museus? Quantos se solucionaram? Quantos miseráveis na índia sentiram os milagres estruturais da Bauhaus? Vamos renunciar aos modelos clássicos, às nacionalidades, criar uma linguagem internacional (europeia), ser técnico-científico e alegórico-poético, ser atual e nostálgico, ingênuo e hipócrita, religioso e industrial, pintar flores e animais, leveza e agilidade, ser funcional e inútil, deleuziano, benajminiano, freudiano, calvinista, católico, islâmico, machista, funkeiro, opressor, corrupto, alienado, culto, engajado, manifestante, despreocupado, democrático, vegano: LIVRE.

Há a história, há a arte, há o real.
E no fim a morte – por que se preocupar?

Dora Bellavinha é carnaval-pesquisa-arte-literatura-educação: não: Dora Bellavinha não é: está: ainda procurando sua melhor versão biográfica.
No quando agora: diretora-performer-produtora-cenógrafa do projeto @entreumacasaquesetorna : a poesia de cada dia nos dai hoje.

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Autor
Passarinho loque, asa artivista e redundante.

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