Toda mãe é sereia

 

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Dia desses, conversando com uma amiga sábia, ela me solta essa:

— Nossos pais podem até ser os caras, mas é sempre a mãe que a gente leva pro divã.
Fiquei calada diante da obviedade. Sim, nossa substância fundamental é mãe. Não fique pensando em uma mãe idealizada que carrega um estoque sem fim de amor incondicional e conselhos sábios numa cestinha cor-de-rosa de candura; afinal ela também foi feita de uma mãe, que foi feita de outra; é portanto falível e confusa como eu e você.

Não se trata também de desqualificar a função do pai, aliás, incorro no cliché de dizer que o meu era herói. Um herói torto e com mais incoerências que boa parte da vilania da pesada. Mas na minha experiência, o pai vem como um reboco, quando o fundamental já está pronto. E que fique claro que estou falando de funções e não de gênero. Tem pai-mãe e mãe-pai e tem gente que não está em lugar nenhum mesmo já tendo filhos.

Eu me tornei mãe no susto, aos dezessete. E sem ter tido tempo pra problematizar ou idealizar nada, fui mãe sendo. Na peleja e na expectativa. No absurdo belo e assombroso de ver um ser humano ser formado diante de mim. Errei ilimitado, mas inseri aquela criaturinha no meu desejo. Nomeei o mundo pra ela e da forma que pude me fiz espelho e tentei ser estrada. Não tem a ver com bondade, mas com desejo. É como uma espécie de potência inconsciente em prol da subsistência dos seres falantes. Um belo truque da vida.

Me irrita profundamente essa alienação em torno da figura materna. A sacralidade da mãe, o amor irrestrito e a capacidade de doação e abnegação infinitas. Mãe faz cagada e esconde chocolate pra comer sozinha. Mãe quer deixar o filho na escola pra ficar “livre”. Porque ser mãe cansa, ainda mais quando o que se espera dela é nada menos do que a perfeição. Na real a gente sofre da família que vem e faz sofrer a família que cria porque a vida não é instagramável mesmo com uma boa colheita de momentos felizes.

Aos vinte e quatro fui mãe novamente. Planejadamente, mas nem por isso mais acertada. Claro que a perspectiva das coisas mudaram bastante e que o medo era menor. Mas muitas vezes batia um pânico, justamente pela prévia consciência de que aquele serzinho se tornaria uma pessoa, descolada de mim, com as suas escolhas e personalidade única. De um lado ou do outro do balcão essa equação da vida é muito louca e se existe solução, não divulgaram ainda.

Dos ganhos que a maternidade tem tido desde a minha estreia, percebo um movimento magnífico de mães se organizando em grupos de suporte e compartilhamento. De aprendizado com erros e acertos alheios, de dicas, truques e atalhos que poupam muita angústia. É claro que nada é perfeito. Nesses mesmos grupos existe muita competição, julgamento e vaidade. Aliás pra mim essa é a grande cilada na formação de outro ser humano. Seu filho não é especial, como eu não sou, nem você. Desculpa te contar assim, a seco. Mas prometo que é pro seu bem se você ainda não realizou isso. O amor que a gente sente por eles é especial. A ambição, o orgulho e o brilho no olho também. Mas quanto mais a gente tiver consciência de que o mundo não precisa de mais princesas, de “ esse é meu garoto” e de mêsessários; mais chances a gente tem de melhorar socialmente. Se eu pudesse dizer apenas uma coisa do meu rolê materno seria: ensine seu filho a equiparar o olhar no exato nível do outro. Juro que assim o tombo é menor e a dor da vida mais amena. A gente é só passageiro dividindo o mesmo trem, se lembra?

E assim mesmo não é garantia de final feliz. E essa história de que a culpa é sempre da mãe também não é bem assim. Para um pouquinho aí… Viu? Nem deu tempo do miojo ficar pronto e já deu pra fazer um exame de consciência parrudinho, né? Se tudo der certo, no fim das contas você vai fazer as pazes com ela e com você também. Pra minha mãe fica a minha gratidão imensa por tentar me inventar a partir daquilo que ela conseguiu apanhar da vida. Aos meus filhos, as minhas desculpas e meu desejo maior de que eu tenha conseguido de alguma forma moldar a empatia neles e que eu não tenha me tornado uma carga muito pesada pelos divãs da vida.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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