Trabalhabilidade e carreira 3.0: como sobreviver nesse cenário de mudanças

 Foto: Werner du Plessis via Unsplash

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“A humanidade vai mudar nos próximos 20 anos mais do que mudou nos últimos 300 anos”. Essa frase apocalíptica, do futurista e humanista Gerd Leonhard, nos aponta para um caminho por onde muitas vezes queremos evitar passar: o de pensar em como estamos modelando o futuro que iremos viver.

Pera aí: como assim estamos modelando (no gerúndio)? Não seria melhor dizer: como iremos modelar (já que estamos falando de futuro)? Para os futuristas, o que já vivemos hoje (e que chamamos de tempo presente) até os próximos 5 anos é caracterizado como sendo o futuro emergente. Então, meu caro leitor, não se assuste: você já está vivendo o futuro!

Se pararmos pra pensar em termos de carreira e trabalho, a confusão se torna ainda maior. Pois, embora teoricamente já estejamos navegando pelo futuro, ainda estamos reproduzindo os mesmos padrões do século passado no que diz respeito à forma como estamos gerindo nossas carreiras.

Umas quatro ou cinco décadas atrás a ideia de ter um “bom emprego” estava diretamente relacionada a uma gestão de carreira, na qual cabia ao empregador cuidar da carreira dos seus empregados até a aposentadoria. A Geração Baby Boomer (de pessoas nascidas entre 1946 a 1964) se caracterizam por terem como um dos seus anseios de vida um emprego fixo e estável. E isso não era algo muito difícil de acontecer: as pessoas eram contratadas ainda jovens e só se desligavam, salvo algumas exceções, ao se aposentarem (pergunte para seus pais e avós e eles irão lhe confirmar isso). Essa foi a era da carreira 1.0.

A partir dos anos 90, o termo empregabilidade ganha força graças a uma geração (a geração X: dos nascidos entre a segunda metade dos anos 60 até o final dos anos 70) que tinha como meta de vida se manter atrativo para o mercado. Os profissionais dessa época se caracterizam por serem indivíduos altamente competitivos, já que cabia a cada um o desafio de construir seu caminho profissional, muitas vezes por meio de articulações que o permitisse sobreviver no canibalístico mundo corporativo, onde somente sobreviviam os mais eficientes e competentes.

Mas, ao contrário da geração anterior, essa geração X já começava a acenar para a possibilidade de trocar de empresa ao longo da sua trajetória profissional. Principalmente se “a troca” viesse precedida por algum bônus, como aumento de salário e uma escalada de projeção profissional. Foi uma época em que as pessoas começaram a assumir uma responsabilidade maior no controle de suas carreiras e ter um único emprego para a vida toda passa a ser algo questionável.

Chegávamos, enfim, a era da carreira 2.0, onde as principais mudanças ocorreram pela percepção de que não havia mais plano de carreira linear nas médias e grandes corporações; não havia mais crescimento por tempo de casa; a incerteza nos negócios fez com que a previsibilidade e estabilidade em se manter no “topo” fosse afetada.

Mudanças no mundo do trabalho começaram então a ser evidentes a nível global. A Gig economy ou freelancer economy é algo que cresce no mundo todo. Estima-se que nos EUA, até 2020, 60 milhões de americanos, ou 40% da força de trabalho, sejam de profissionais autônomos, freelancers ou terceirizados.

A economia sob demanda já começa a despontar no Brasil como uma alternativa de trabalho para muitos profissionais (em sua maioria com altos níveis de qualificação) que se viram a ter de reinventar suas carreiras após muitas empresas necessitarem reavaliar seus níveis hierárquicos (e aqui estamos falando de altos salários e benefícios de carreira) como forma de lhes garantir a própria sobrevivência.

O saldo positivo disso, entretanto, é que muitos profissionais já vêm descobrindo uma nova forma de trabalhar, que depende muito mais de suas habilidades, e lhes proporcione maior flexibilidade e qualidade de vida. Pelo outro lado, empresas e profissionais que contratam essa mão de obra se beneficiam de uma força de trabalho extremamente qualificada, com melhores índices de produtividade e a custos reduzidos.

Mas agora eu te convido a fazer um check up mental para que você possa analisar se o que você procura nos tempos atuais é por um emprego/cargo (ainda que não seja para a vida toda), que mantenha o seu nível de empregabilidade ou por uma atividade/ocupação que o faça assumir as rédeas de sua carreira e o coloque no patamar da trabalhabilidade.

Se o seu mindset ainda corresponde ao primeiro caso (o da empregabilidade), eu sinto muito lhe informar que você está correndo um sério risco de se tornar obsoleto para um futuro (nada distante) no qual o maior temor não será o de ter a inteligência artificial como seu maior concorrente, mas sim o de ficarmos defasados muito antes de termos as máquinas ocupando nossos lugares.

Mas se você já “virou a chave” e percebeu que cabe a você (e somente a você) começar a investir hoje para encontrar novas alternativas para produzir e gerar renda, parabéns! Você acabou de carimbar seu passaporte rumo ao futuro do trabalho. E dessa vez quando falamos do futuro, estamos nos referindo ao futuro que é o futuro mesmo. Cabe ainda ressaltar que, embora muitas funções ainda estejam longe de serem executadas por robôs e máquinas, sabemos que num futuro bem próximo muitos postos de trabalho serão extintos.

A notícia boa é que para os que tendem a se extinguir, tantos outros postos ou novas carreiras estarão sendo criadas e remodeladas. Estima-se que até 2020 muitas profissões, que hoje nem sequer existem, estarão sendo criadas para atender a uma demanda de trabalho que supra as necessidades de soluções que estão sendo desenvolvidas.

A má notícia é que esses novos postos não serão plenamente ocupados. E isso se deve simplesmente ao fato de que não estamos nos preparando hoje (no presente) para ocupá-los por meio de nossas habilidades e competências. Esse “fenômeno”, ainda pouco conhecido ou falado tem um nome: skill gaps, ou numa tradução literal: déficit de qualificação.

Sim, é isso mesmo que você acabou de ler: num futuro bem próximo (ou pós emergente, como preferem chamar os futuristas), muitas profissões necessitarão de competências e habilidades das quais não estamos preocupados em desenvolver. E imagino que a essa altura você deve estar pensando: mas quais habilidades seriam essas? Afinal, se pensarmos bem, ainda dá pra correr atrás para chegar em 2020 com o “diploma de graduação” nessas novas habilidades.

E se eu te disser que algumas dessas habilidades, que no futuro poderão lhe garantir se manter ativo no mercado, você já as possua e talvez só precise saber como pode acessá-las ou potencializá-las? Criatividade, pensamento crítico, empatia, escuta ativa, adaptabilidade e capacidade de resolução de problemas são apenas algumas das habilidades que estarão em alta nos próximos anos. Ou seja, não se preocupe em querer se matricular em nenhum “curso preparatório para profissões do futuro”. Você é o único responsável por assumir as rédeas, assumindo de vez o protagonismo da sua carreira.

O protagonismo de carreira é a fase aguda do que hoje chamamos de carreira 3.0. É quando o indivíduo se torna consciente de que os principais fatores de mudança começam quando o mindset passa a ser o da lógica de que podemos nos valer de outros recursos, como a criatividade, para nos mantermos ativos num mercado em que cada vez contam se menos os títulos e mais as habilidades cognitivas.

Para Salim Ismail, ex-diretor da Singularity University, dentro de alguns anos só haverá uma única descrição de cargo: “solucionador de problemas criativo e adaptável”. As pessoas serão contratadas pelo quão adaptáveis elas podem ser.

Temos que pensar também no quão estamos nos preparando para o futuro do futuro, ou seja, o período que os futuristas se referem e que diz respeito ao cenário no qual poderemos estar inseridos nos próximos 20 anos ou mais. Pois, um outro aspecto da trabalhabilidade tem a ver com a longevidade: se o emprego pode ser um ciclo finito na vida das pessoas, o trabalho é algo bem mais duradouro. E já que estamos vivendo mais, precisamos pensar em como manter uma vida produtiva que nos garanta termos trabalho e renda por mais tempo.

Muito dessa lógica se deve ao simples fato de que quanto mais assumirmos a trabalhabilidade como foco de nossas carreiras, menos nos preocuparemos com os índices alarmantes de desemprego que assolam o nosso país (que segundo o IBGE passou das 14 milhões de pessoas em 2017). Ou seja, para os profissionais atentos à trabalhabilidade não importa se a automação é algo a ser temido ou se os próximos governos serão capazes de mudar o atual cenário político e econômico.

O profissional que começar desde já a pensar não só no futuro de sua carreira, mas que sobre tudo esteja usando do seu presente para provocar mudanças (ou até mesmo pequenas revoluções) na forma como vem modelando sua vida profissional, tem grandes chances de ter trabalho, ocupação e renda ao longo de toda a sua vida produtiva.

Não há que se temer o futuro que acontece aqui e agora.

Autor
Jornalista e Relações Públicas. Estudiosa e entusiasta das economias de multi-valor, das novas tecnologias e de modelos organizacionais autônomos e distribuídos. Co-fundadora da Conecxo - Consultoria, Mentoria e Gestão de Projetos. Community builder na rede Women in Blockchain Brasil, que defende a educação, a inclusão e o acesso de mulheres a carreiras da área de tecnologia. Iniciadora e co-criadora da E.L.A - Escola de Livre Aprendizagem, um movimento de descolarização à favor de uma educação mais justa, inclusiva e humanizada.

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  1. Boa reflexão sobre o mercado de trabalho que com o desemprego e a reforma trabalhista vai trazer ainda mais responsabilidade para os profissionais e haja criatividade.

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