Tramas do Crack

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Texto de Taniele Rui

Semelhante aos locais de grande afluxo, a cracolândia atrai e concentra uma ampla diversidade de usuários de crack, atestada num simples golpe de vista. Assim que se chega às ruas do entorno, a leitura corporal da multidão é procedimento que antecede a reflexão. Veem-se aqueles que passam apenas para comprar a droga, que é vendida explicitamente; aqueles que param rapidamente para consumi-la e logo saem, aqueles que acabaram de chegar, aqueles que parecem estar ali há mais tempo, os que se mostram mais à vontade, os que andam desconfortavelmente.

Alguns riem, outros estão preocupados, a grande parte parece só olhar. Notam-se os que passam de bicicleta, os que estão parados em pé, os que estão sentados, os acocorados e os que, cansados, deitam-se nas calçadas. Esses ainda se diferenciam entre os que se deitam em colchões, os que se deitam em papelões e os que se assentam diretamente sobre o chão. Alguns estão sozinhos, outros, agrupados em pequenos conjuntos de três ou quatro pessoas, encostados nos muros e parapeitos das calçadas, próximos às sarjetas, ou mesmo no meio da rua.

Seguindo essa visão imediata, é possível distinguir os que estão mais sujos dos que estão mais limpos; os que calçam sapatos ou chinelos dos que estão descalços; alguns com roupas rasgadas, outros com vestimentas em bom estado e os enrolados em cobertores. Bonés, agasalhos, óculos escuros são adornos que se destacam. Uns comem alimentos doados, outros fumam crack, alguns pedem cigarros. Montam cachimbos, pedem-nos emprestados, arrumam piteiras.

Há os que estão acompanhados de seus cachorros e carregando pertences, há os que levam consigo suas carroças de materiais recicláveis, há os que reviram o lixo em busca de algo que possa ser valorado na troca por droga, há os que não têm nada além da roupa do corpo. Na multidão, destacam-se os homens jovens, que possuem entre vinte e quarenta anos. Olhando mais, veem-se os adolescentes, as crianças, os idosos, as mulheres.

Na maior parte das vezes estão falando muito, conversando, revendendo, trocando objetos, contando histórias ou lançando desaforos. Há os que querem falar, mas a voz rouca já não os deixa. Alguém quer droga por um real, outro quer só um trago, um vende sapatos, outro comercia roupa e produtos alimentícios e há aquele que procura alguma lasca da droga que foi esquecida no chão.

Este artigo, organizado pela PISEAGRAMA a partir do extenso trabalho etnográfico realizado pela autora, continua aqui 🙂

Autor
PISEAGRAMA é uma plataforma editorial dedicada aos espaços públicos – existentes, urgentes e imaginários – e além da revista semestral e sem fins lucrativos, realiza ações em torno de questões de interesse público como debates, micro-experimentos urbanísticos, oficinas, campanhas e publicação de livros.

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