Um ano sem Rogéria

 Foto: Lucas Ávila

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Rogéria me recebeu em seu pequeno apartamento no Leme, no Rio, em outubro de 2013. Estava com uma roupa larga de seda, óculos escuros, cabelo preso. “Isso é o máximo que posso fazer”. A ideia inicial era fotografá-la sem maquiagem, para um projeto que desenvolvo sobre o feminino no imaginário popular brasileiro, o que não aconteceu. Sua casa estava repleta de troféus que recebeu ao longo da carreira, fotos com personalidades, capas de revistas emolduradas. Embora controversa no discurso, que muitas vezes batia de frente à pauta de reivindicação das pessoas trans no Brasil, é inegável sua importância para a visibilidade LGBTQI na cultura popular no país, principalmente durante o regime militar. “Sou a travesti da família brasileira”, dizia.

Como queria retratá-la de forma diferente do convencional, sugeri, de improviso, um ensaio decadente. “Pense que você era milionária e perdeu tudo, Rogéria”. E assim seguiram as fotos em poses dramáticas, intercaladas por histórias de suas aventuras ao longo da vida, amores, sexo, fama e dinheiro. “Tente não mostrar tanto a minha cicatriz”, disse apontando para uma grande marca na testa que ganhou após um acidente de carro no auge da carreira. Vez ou outra cantarolava em francês, gesticulando de forma apoteótica, como uma estrela do cinema. Conversamos por horas após o ensaio, fiz uma longa entrevista. Meses depois voltei em sua casa com um retrato do ensaio revelado. Fui recebido novamente com abraços. “Meu amor, bem vindo ao clube da Rogéria”, me disse como um troféu conquistado. Me ligou no mesmo ano pra desejar feliz natal.

Há pouco mais de um ano, Rogéria nos deixou.

“Hoje, aos 70, posso dizer que amei e fui amada. Ficaria tristíssima se passasse por esta vida sem saber o que é o amor. Só que hoje eu não gosto mais de flertes, eu gosto de escolher. Vou a uma sauna maravilhosa aqui no Rio de Janeiro e escolho. Nunca fui puta, mas gosto de pagar um cara. E quem está lá não é a Rogéria famosa, é um lado que ninguém conhece. Como uma boa geminiana, tem hora que minha alma é de um jeito ora de outro. Mas as mães de família me adoram! Eu sei dividir as coisas. Tenho certas facilidades em ter nascido com pau. Não é todo dia que faço xixi sentada. Isso é uma grande vantagem. Mas, ao me higienizar no banheiro, logo fantasio que estou usando um absorvente. Quem me resolveu fui eu mesma, não meu psicanalista.”

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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