Uma mulher que faz livros: um encontro entre design, literatura e feminismo

 Design: Valquíria Rabelo (Estúdio Guayabo). Foto: Esther Azevedo.

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“Uma mulher”, projeto de escrita expandida de Flávia Péret, partiu de uma inquietação da autora: ​”​​como preservar nossa singularidade, aquilo que temos de particular, as imagens da nossa intimidade, os sentimentos da nossa vida privada e mesmo assim não perder a dimensão do coletivo ou da partilha da experiência de ser mulher, experiência difícil, bonita e comum?”. Sem oferecer respostas definitivas, “Uma Mulher” é um poema-processo, no qual Flávia Péret pesquisa sobre uma condição específica. ​Como uma enumeração, cada um dos versos é iniciado pela expressão “uma mulher”, seguidas de uma adjetivaçã​o — “uma mulher que começou a escrever”, “uma mulher que faz listas”, “uma mulher que um dia vai morrer”. ​

As frases desse também poema-lista levam a outras perguntas, ora contraditórias, ora complementares, abrindo incontáveis caminhos de leitura.

A escrita despojada, simples, direta, às vezes excessivamente coloquial de Péret em “Uma Mulher” cria jogos de linguagem em diálogo com gírias, frases feitas, expressões populares e objetos de consumo, afastando o poema de uma imagem erudita. Acidez, humor e ironia questionam tanto os estereótipos em torno do que é ser uma mulher quanto a beleza de não sair dele, de habitar o lugar comum da experiência de ser mulher.

Flávia é escritora, mestre em Estudos Literários pela UFMG, estudou Literatura Latino-americana na Universidade de Buenos Aires (UBA) e é mestranda em Educação na UFMG, com uma pesquisa sobre escrita e formas políticas de resistência. Participou do programa Rumos de Literatura, na categoria Crítica Literária (2010/2011), promovido pelo Itaú Cultural e foi vencedora do Prêmio Folha Memória — Programa de Orientação de Pesquisa em História do Jornalismo Brasileiro, organizado pelo jornal Folha de São Paulo (2010). Publicou os livros História da Imprensa Gay no Brasil (Publifolha, 2011), 10 Poemas de Amor e de Susto (Edição independente, 2013), A outra noite (Edição independente, 2015) e Uma mulher (Edição independente+Guayabo, 2017).

O livro

uma mulher - estudio guayabo
Design: Valquíria Rabelo (Estúdio Guayabo). Foto: Esther Azevedo

O que começou com uma única frase, depois virou livro: além dos poemas, o impresso contou com prefácio de Letícia Féres, posfácio de Marília Garcia e projeto gráfico Valquíria Rabelo (Estúdio Guayabo).

O gesto mecânico da repetição orientou a escolha dos acabamentos do volume: a encadernação das páginas foi feita em grampo ômega — um grampo metálico em formato de loop, com uma aparência industrial.

Design: Valquíria Rabelo (Estúdio Guayabo). Foto: Esther Azevedo

Já o contraste entre a ideia de unidade, contida no título, com as inúmeras possibilidades de variação motivou a produção de dois modelos de capa — uma rosa e outra verde, a partir da mesma estrutura tipográfica. Impressas em Flor Post, um material similar ao papel seda, as capas são translúcidas e suaves ao toque. Ao mesmo tempo, sua baixa gramatura faz com que rapidamente sejam marcadas pelo manuseio, gerando uma textura acidentada que tensiona a delicadeza inicial do objeto.

Design: Valquíria Rabelo (Estúdio Guayabo). Foto: Esther Azevedo

A metalinguagem é outro importante aspecto. Assim como a escrita se volta para sua própria linguagem, o design da publicação também faz referências ao universo gráfico. A ficha catalográfica, por exemplo, foi impressa à parte e anexada manualmente a cada exemplar com um clips de papel, se assemelhando a um cartão de biblioteca. Ao se atentar para cada um desses detalhes, o projeto gráfico buscou explorar as qualidades materiais enquanto camadas de sentido.

Design: Valquíria Rabelo (Estúdio Guayabo). Foto: Esther Azevedo

Além d​a publicação​ impressa, ​que já teve toda a sua tiragem esgotada, “Uma Mulher” ​desdobra-se também​ em um ​projeto on-line. No site umamulher.org, desenvolvido por Tande Campos, encontram-se os mesmos versos presentes no papel, porém recombinados a partir de um algoritmo, que gera novos textos em interação com cliques da leitora ou do leitor.

Para que o projeto voltasse a se materializar, alguns dos poemas gerados pela plataforma ​foram selecionados pela escritora e transformados em uma série de ​cartazes, ​que você encontra na rosaguaja — o marketplace do GUAJA.

Veja entrevista da Flávia Perét para o canal Estratégias Narrativas no Youtube.

Autor
​O Guayabo existe no encontro, no compartilhamento de ideias e habilidades:​ ​somos um estúdio colaborativo de design. Através de práticas interdisciplinares, realizamos projetos autorais e sob demanda nos campos de branding, ilustração e editorial.

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