Vida Pedestre

 

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por Renata Marquez

Existe vida pedestre nas cidades. Essa afirmação não resulta tão óbvia assim. Em Barcelona, há alguns pares de anos, podia-se ler o seguinte texto estampado emstencil no asfalto de La Rambla: “Um em cada três mortos em acidentes de trânsito andava a pé. Atenção! Todos somos pedestres!”. Atenção, nem sempre somos esses seres híbridos que se locomovem sobre quatro rodas em alta velocidade. E a cidade nem sempre é esse filme ao qual assistimos através de vidros indefectíveis, protagonizado por personagens distantes e mediado pelo botão acionador da janela do carro. Fecho rápido e pronto, o passeio agora pode ser devidamente sintonizado na trilha sonora preferida e ajustado à temperatura perfeita, tudo muito agradável. Percorro a cidade como se fosse um passeio remoto. Estou lá sem estar. Vejo sem ver, conheço sem conhecer. Apenas suspeito que a cidade real parece ter resolução mais detalhada do que a imagem de GPS que tenho no painel à minha frente, mas, afinal, isso pouco importa. 

Contudo, de repente alguém é atropelado. Foi em Barcelona, mas poderia ter sido em qualquer esquina do Brasil. “Se tudo pode acontecer/se pode acontecer qualquer coisa/um deserto florescer/uma nuvem cheia não chover/pode alguém aparecer/e acontecer de ser você/um cometa vir ao chão/um relâmpago na escuridão”, canta Arnaldo Antunes. Espero que me perdoem por omitir a parte feliz da canção, ok? Pode acontecer de ser você. A pessoa sai de casa para passear, passa antes no mercado municipal, compra cerejas perfeitas. Entra na livraria, confere as novidades da seção de revistas de fotografia. E resolve, sem mais nem menos, ir ao Teatre Grec assistir ao show da Laurie Anderson. Espera pelo ônibus no ponto da esquina. Sai de casa de blusa nova, comprada no dia anterior na Calle Tallersque fica ótima combinada com a saia antiga preferida. E tudo escurece. Não tinha a menor ideia de que demoraria dois meses para voltar para casa. E, ao que parece, teve sorte.

O primeiro passeio, depois de quarenta dias de imobilidade total na posição horizontal, foi de ambulância. Ainda não voltando para casa, mas mudando de hospital: saindo de um hospital de urgência e indo para um hospital de reabilitação. Vê o céu – inacreditavelmente azul naquele dia –, o que há muito não tinha tido a oportunidade de ver. Do ponto de vista da sua imobilidade hospitalar não havia vistas ou perspectivas exteriores. 

Calma, essa matéria da Renata ainda continua por muitas linhas aqui. 

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PISEAGRAMA é uma plataforma editorial dedicada aos espaços públicos – existentes, urgentes e imaginários – e além da revista semestral e sem fins lucrativos, realiza ações em torno de questões de interesse público como debates, micro-experimentos urbanísticos, oficinas, campanhas e publicação de livros.

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