Autoritarismo e violência escancarados na tela do cinema

 Créditos: Gustavo Gontijo

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Desde o início da década de 1980, Marilena Chauí já discorria: a sociedade brasileira é autoritária e violenta. “Não se trata, porém, de considerar os brasileiros como individualmente violentos. Trata-se de esclarecer as estruturas históricas que produzem uma vida social em que o espaço público e republicano é minguado, transferindo-se ao Estado o papel de sujeito da cidadania e reproduzindo-se, no cotidiano, relações de poder.”

O autoritarismo e a violência serão escancarados na tela do cinema na nossa 17ª Edição do Curta Circuito — Mostra de Cinema Permanente. Como não abordar, “exibir” um tema que é tão atemporal? A opressão, o medo e a intimidação caminham lado a lado por décadas e décadas na nossa história. Partindo do tema “A Violência no Cinema Brasileiro”, apresentaremos a nossa inquietação e impassividade diante de questões que envolvem desde a violência à nossa ética.

Através do olhar forte da nossa curadora, Andrea Ormond, serão apresentados 8 clássicos da filmografia brasileira e, cá pra nós, este ano a Mostra vai tirar seu fôlego. Andrea é crítica de cinema e pesquisadora. Escreve na Folha de São Paulo e na Revista Cinética. Autora do blog Estranho Encontro e da trilogia de livros Ensaios de Cinema Brasileiro — Dos Filmes Silenciosos ao Século XXI.

Sente o drama na narrativa de Andrea, Abra a porta e deixe entrar: a violência no cinema brasileiro, para a Curta Circuito:

“O cinema brasileiro é parte da alma nacional, tanto quanto a malandragem ou a jabuticaba. E existe nele um mundo sórdido, obscuro. Por mais que doa, é preciso admitir: o país do futuro tem exímia tradição em matéria de violência. Atos grandiosos — torturas, banhos de sangue —; atos pequeninos — escondidos debaixo do tapete.

Para desafiar a lógica do bom mocismo nacional, a Mostra Curta Circuito de 2018 coloca o dedo na ferida. São oito filmes sobre a violência no cinema brasileiro. Nem sempre debatidos, mas atualíssimos.

Crédito: Vitor e Vinicius Testa

Teremos serial killer (Ato de Violência, de Eduardo Escorel); uma tentativa brasileira de cinema de ação (Os Treze Pontos, de Alonso Gonçalves); juventude transviada (A Lei do Cão, de Jece Valadão); a versão radiofônica dos jornais populares de notícias (O Outro Lado do Crime, de Clery Cunha); a epopeia da ultraviolência (Eu Matei Lúcio Flávio, de Antonio Calmon); a mulher como elemento devorador e senhora de si (Beijo na Boca, de Paulo Sérgio Almeida); o ódio em tempos de votação eleitoral (A Próxima Vítima, de João Batista de Andrade); a canalhice do crime organizado versus o poder gay (República dos Assassinos, de Miguel Faria Jr.).

Como visto, o gênero da violência é amplo, cabem diversos subitens. Além dos aspectos visíveis — os hematomas e as certidões de óbito —, a violência também abriga outros tipos de perversidade. Pode aparecer em um sussurro, durante o jantar da família, e ser tão poderosa quanto uma facada na jugular.

Cada um dos filmes selecionados tem a missão de falar da violência sem engrandecê-la de modo vazio. Abandonamos as escolhas mais conhecidas pelo grande público e preferimos elementos raros, inusitados. Afinal, cinema é um fenômeno artístico, embriagado de diversidade, de estilos, intenções.

Eu Matei Lúcio Flávio debocha do realismo social. Dirigido por Antonio Calmon, ovelha desgarrada do Cinema Novo, o filme peitou os cânones e deu uma resposta pop, autoral. Da mesma carne em que Hector Babenco criou Lúcio Flávio — a Agonia, um filme-denúncia, Eu Matei Lúcio Flávio extraiu praticamente uma história em quadrinhos, coleção de vinhetas memoráveis que muito anteciparam o cinismo das décadas seguintes. Críticas apressadas não entendem as alucinações de Calmon. Mas foi ele o responsável por colocar na tela um homem amarrado, martirizado, à imagem e semelhança de São Sebastião — figura típica na mitologia erótica, analisada por gente como Yukio Mishima. Está lá, no meio da saraivada de testosteronas. Basta olhar. Sem preconceitos. Olhar.

Curiosamente, violência costuma ser associada ao universo masculino. Beijo na Boca, produzido por Pedro Carlos Rovái — conhecido pelas pornochanchadas dos anos 1960 e 1970 —, desconstrói esse dogma. Celeste (Cláudia Ohana), a cocota filhinha de papai, manipula um idiota. É o confronto da força bruta com a força do sexo, cheio de tintas novelescas e cartões-postais do Rio de Janeiro. Tudo planejado por Paulo Sérgio Almeida, diretor que mais tarde se especializou na franquia dos filmes de Xuxa Menenghel. Beijo na Boca usa algumas histórias de crimes cometidos por casais homicidas. Bonitos e, de longe, absolutamente normais.

Essa tensão entre normalidade e patologia explode em Ato de Violência. Como pano de fundo, vemos a análise sobre até que ponto o desejo de “constituir família” é uma tara imposta pela sociedade. Baseado em fatos reais, Ato de Violência aborda a história de Chico Picadinho, aqui batizado de Antônio (Nuno Leal Maia). Homem pacato, que assassina mulher, é preso, cumpre a pena. Casa-se na prisão, sai em liberdade condicional, mas repete o crime com uma prostituta. O filme traz o véu da melancolia, com passeios sombrios pelas ruas da Boca do Lixo, de São Paulo.

Falando sobre o cinema de ação no Brasil, com tiros, correrias espetaculares e poucos recursos financeiros, surge Os Treze Pontos, realizado em Minas Gerais. Alonso Gonçalves dirige a trama e encarna o protagonista. Um autêntico sururu no roteiro, misturando loteria esportiva — sim, houve uma época em que ela existiu — e informática. A estratégia acaba ressaltando o eterno flerte dos filmes de ação com a tecnologia. Mesmo sem firulas digitais e sem a estética de videogame que atualmente povoa os blockbusters, Os Treze Pontos deixa agradável surpresa para os espectadores.

Em tempos idos, o rádio era elemento aglutinador da família brasileira. Assim como o pinguim em cima da geladeira, o rádio ficava no meio da sala. Ao seu redor, crianças de calças curtas, o pai fazendo contas, a mãe pondo os pratos na mesa. Como nem tudo são flores, a tradição radiofônica viajou para a atmosfera barra pesada dos crimes. Casou-se com os jornais, que já batiam ponto no métier, e nasceram filhos como Gil Gomes. Gil misturou rádio, novela e assassinatos. Em O Outro Lado do Crime, de Clery Cunha, narra causos pitorescos com a voz histérica. Anos mais tarde, Clery e Gomes trabalhariam juntos novamente, no clássico programa de televisão “Aqui, Agora”.

Televisão, por sinal, é o mote de A Próxima Vítima. João Batista de Andrade estava incensado com O Homem Que Virou Suco, sobre migrantes nordestinos na megalópole. A Próxima Vítima aborda novas camadas de crueldade. Perto do fim do regime militar, durante as eleições estaduais, o repórter de TV, David (Antônio Fagundes), apaixona-se por uma garota de programa. Mergulha de cabeça na loucura de amar a mulher de todos, condenada por todos. Fagundes foi destemido o suficiente para romper com o rótulo de macho alfa em cena histórica. Ao confrontar o suspeito de um crime, acaba recebendo a medida extrema. O rapaz urina no rosto do repórter. Não há concessões, João Batista não edulcora o ódio.

República dos Assassinos utiliza recurso importante em nossa trajetória cinematográfica: a adaptação literária. O livro homônimo de Aguinaldo Silva causou rebuliço ao contar a história dos “Homens de Ouro”, grupo de policiais que recebeu carta branca para combater o crime no Rio de Janeiro. Aguinaldo foi editor do jornal O Lampião da Esquina, marco da comunidade LGBT, quando ainda nem sequer existia o acrônimo. Trocando nomes — para evitar consequências —, República afrontou o submundo do crime com elementos da mais fina flor gay. O beijo da travesti Eloína (Anselmo Vasconcellos) em Carlinhos (Tonico Pereira) ainda hoje ecoa. Dois losers na noite delicada e suja, ao som de Roberto Carlos, trazidos pelas mãos de Miguel Faria Jr.

Como não poderia deixar de ser, Jece Valadão aparece neste ciclo de filmes. Tanto na frente das câmeras — como protagonista, em Eu Matei Lúcio Flávio — quanto atrás delas — como produtor e diretor, em A Lei do Cão. Ame-se ou deixe-se Jece, é inegável que a sua persona mesmerizou o público durante décadas. Esteve à vontade nos crimes filmados: bicheiro, homem da lei, fanfarrão e – surpresa! – visionário. Rodado em 1967, A Lei do Cão possui um tipo de violência que seria explorada na década seguinte. Espécie de redneck paranoia, com jovens transviados e brasileira filosofia de botequim. Uma pérola da filmografia nacional, que permaneceu esquecida por cinco décadas, agora resgatada na programação da Mostra Curta Circuito.

2018 é ano de eleições, que podem ser tranquilas ou de terrível fanatismo. A Próxima Vítima já demonstrava que o mundo cruel existe, mesmo para aqueles que ficam maravilhados com a euforia cívica. Sobretudo em um país recordista de homicídios, líder em indicadores de desigualdade social e com fôlego muito curto para o exercício democrático. Debater a violência tornou-se necessidade urgente.

Felizmente para nós, a Curta Circuito usa o guarda-chuva das artes e seleciona uma, em especial: o cinema. Nele repousam vários canais de comunicação, como a fotografia, a cenografia, a escrita do roteiro, as questões econômicas da produção. Devemos observar o modo com que tudo isso é colocado na panela e remexido pela equipe de um filme. Sem a intenção ingênua de dar soluções para um problema estrutural da sociedade brasileira, lançamos o olhar para oito longas-metragens fulminantes do cinema nacional.

Para que a seriedade do drama, se é possível ser kitsch como Gil Gomes? Para que a tese da virilidade, se podemos debochar nas entrelinhas, como em Eu Matei Lúcio Flávio? O beijo na boca pode ser perverso, como o de Celeste, ou clamar por um lugar ao sol, como o de Eloína. O tapa dói na cara do repórter David, mas os moçoilos de A Lei do Cão dançam com a cabeça entupida de mandrix. Ao fim de tudo, pode restar apenas a derrota de Antônio em Ato de Violência, e o rastro das mortes que sociologia nenhuma consegue limpar. Mas cinema é também ilusão, o tiro pode ser de festim, nas lutas de Os Treze Pontos.

Em processo de análise comparada, a violência nos filmes brasileiros há de ser garimpada como, por exemplo, os italianos fazem com os gialli. No Brasil, ela fornece o combustível para o fenômeno cultural que criou um edifício cinematográfico de extrema originalidade. Com os pés fincados na brutalização do cotidiano, temos uma pantera que cresce exponencialmente a todo minuto. Agora mesmo, enquanto o leitor vira as páginas.

No relicário do tempo, os debates trazidos pelos oito filmes permanecem na ordem do dia. Desafiam o narcisismo do século XXI, tão autocentrado e falsamente equilibrado em campanhas higienistas, que não se sustentam diante de um piparote mais forte. Por trás da euforia da felicidade, da miríade de selfies, das estrelinhas em aplicativos, o mundo lá fora ruge, com a boca aberta e os dentes afiados. A violência permanece como paradigma brasileiro, brotando não apenas dos problemas sociais ou econômicos, mas também da dessensibilização das almas. Profunda, em quase todo ser humano. O cinema abre uma porta para esse enrosco. A Curta Circuito, sempre embalada na missão de resgate histórico do cinema brasileiro, traz o carnaval para a sala escura. Um corso de demônios, êxtases e reflexão. Aproveite. Porque ele está prestes a começar.”

O que falar dos próximos quatro meses de sessões e encontros? Que serão intensos e libertários. Nosso papel continuará sendo o de dialogar, questionar e trazer à tona questões históricas. Nossos filmes, nossa memória — assim como a ética — não podem ser esquecidos.

Nosso caderno de crítica apresenta um novo formato, mais encorpado, demonstrando o olhar de 16 críticos que resenharam, de forma elétrica, sobre os filmes.

Hoje, dia 19/03, tem sessão. E você está convidado para esta e todos os outros encontros. Confira a programação completa aqui.

Autor
Formada em Produção Editorial com pós graduação em Gestão Cultural. Sou sócia das empresas Le Petit e Frutilla Filmes. Diretora do Curta Circuito — Mostra de Cinema Permanente e Coordenadora de Programação do Cinefoot — Festival Internacional de Cinema de Futebol — edição Belo Horizonte. Trabalho com audiovisual há mais de uma década. Recebi prêmios no Brasil e na Itália. Atualmente desenvolvo três projetos para TV: Chão que eu Piso, 7ª Arte em Cartaz e Tô Diet: sem açúcar com afeto.

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